O mercado financeiro reagiu ao payroll dos Estados Unidos e reprecificou os juros no Brasil, elevando a probabilidade de que a taxa Selic permaneça em 14,50% na reunião do Copom em junho. Os vértices intermediários e longos da curva de juros renovaram máximas — o DI para jan/2027 subiu a 14,43%, o para jan/2029 foi a 14,81% e o jan/2031 chegou a 14,71% — níveis não vistos desde o período em que o Copom ainda elevava a Selic.

A mudança foi provocada pelo relatório de emprego americano, que mostrou criação líquida de 172 mil vagas em maio, acima do teto das estimativas. O resultado reabriu a discussão sobre o ritmo de aperto do Fed, com probabilidades maiores de alta em setembro, e serviu como gatilho para que investidores reduzissem a chance de cortes rápidos no Brasil. A leitura do mercado agora coloca em 68% a probabilidade de manutenção da Selic em 14,50% no encontro de junho.

Analistas e bancos já vinham apontando um conjunto de fatores que sustentam juros elevados por mais tempo: expectativa de inflação em piora, real depreciado e incerteza eleitoral. O BofA elevou suas projeções para a Selic no fim de 2026 e 2027, enquanto equipes econômicas como a do Bradesco destacam que choques externos — por exemplo, pressões via energia — reacendem o foco do Fed em inflação, com efeitos de contágio para ativos emergentes.

No mercado doméstico, a correção da renda fixa reflete duas leituras complementares: menos espaço para cortes imediatos do Banco Central e custo maior do serviço da dívida. Para investidores, a combinação de curva mais alta e volatilidade cambial reduz apetite por posições longas e pressiona custos de crédito. Por aqui, a precificação já embutia a possibilidade de um corte de apenas 0,25 ponto em junho para parte do mercado, mas a tendência agora é de uma pausa mais longa no ciclo de afrouxamento.

Politicamente, o ambiente complica a narrativa do Executivo sobre redução do custo do dinheiro e impacto fiscal positivo de cortes mais rápidos. A manutenção prolongada da Selic implica juros nominais mais altos por mais tempo, aumentando o custo do financiamento do setor público e limitando margem para afrouxamento macroeconômico. Em suma: o payroll dos EUA foi o estopim que acentuou um cenário que já exigia cautela — e que agora cobra decisões claras do Banco Central e do governo sobre estratégia fiscal e comunicação.