A ideia original dos mercados de previsão era ambiciosa: usar incentivos do mercado para agregar informações sobre eventos de interesse público — eleições, inflação, decisões do banco central — e melhorar a capacidade de antever o futuro. Em 2008, 19 economistas defenderam que esses mercados deveriam ser liberados de restrições excessivas, mas com salvaguardas claras, como a exclusão de contratos sobre esportes e tetos modestos de aposta. Quase quatro décadas depois, esse cenário acadêmico deu lugar a plataformas que crescem muito mais pela dimensão do entretenimento do que pelo potencial técnico.

O desvio é relevante. Dados recentes citados por estudos do setor mostram que mercados esportivos representaram cerca de 84% do volume na Kalshi nos últimos 30 dias — aproximadamente US$ 18,5 bilhões — e praticamente 99% do volume no site americano da Polymarket no mesmo período, segundo levantamento do mercado. As casas argumentam que operam com contratos estruturados, não como casas de apostas, mas na prática comprar uma cota sobre um título esportivo funciona de modo muito próximo ao que oferecem FanDuel e DraftKings.

O problema não é apenas de imagem. Quando a maior parte do fluxo é dominada por apostas sobre pênaltis, campeões de basquete ou casamentos de celebridades, o sinal informativo que teoria e reguladores imaginavam fica contaminado. Além disso, a falta de limites de contribuição — os economistas propuseram algo como US$ 2.000 por ano — e a distinção legal entre contratos financeiros e apostas deixam milhares de consumidores expostos e ampliam preocupações de saúde pública e integridade do mercado. Plataformas que, por outro lado, acertaram previsões macro, como decisões do Federal Reserve ou resultados eleitorais, veem sua credibilidade ser questionada justamente quando o conteúdo passa a priorizar volume sobre relevância.

Do ponto de vista público e econômico, há dois vetores imediatos de consequência: diminuição da utilidade dos mercados como instrumentos de informação para políticas públicas e pressão crescente por regulamentação que defina limites, transparência e proteção ao consumidor. A trajetória atual sugere que o desenho institucional original falhou em preservar o propósito declaradamente público desses mercados — resta ao legislador e aos reguladores decidir se permitem que a lógica do entretenimento continue guiando um segmento com implicações reais para dados econômicos e riscos sociais.