A reação dos mercados na quarta-feira deixou claro o ajuste recente nas apostas políticas: o Ibovespa avançou 3,05%, chegando a 185.205 pontos, enquanto o dólar caiu 0,89%, para R$ 5,106. O movimento não se explica apenas por fundamentos econômicos imediatos; é um reflexo direto da percepção de que a eleição presidencial se tornou mais disputada do que estava precificado até semanas atrás.

Até meados de agosto, gestores avaliavam uma probabilidade mais elevada de vitória de Lula — estimada por alguns em torno de 65% contra 35% para Flávio Bolsonaro — e haviam reduzido exposição ao mercado acionário brasileiro, com saída líquida de estrangeiros que chegou a R$ 23,2 bilhões no pior momento do mês. Com a melhora marginal nas intenções de voto de Flávio, a perda de preferência por Lula e a ausência de novas denúncias capazes de inviabilizar a candidatura bolsonarista, a conta do mercado foi recalibrada para algo próximo do empate técnico.

Pesquisas recentes explicam parte desse recalculo. Levantamentos mostram Lula em 42% e Flávio em 41% em simulação de segundo turno, dentro da margem de erro; em julho, a vantagem do presidente era maior (45% a 37%). Em um intervalo de cerca de 45 dias, a vantagem de Lula encolheu de oito para um ponto — informação que ampliou a atenção de investidores e trouxe de volta parte do fluxo que havia saído no início de agosto.

A dinâmica técnica do mercado de ações ajuda a entender a intensidade da alta: com posições reduzidas em ações, a volta parcial de recursos provoca recomposição e picos de valorização mais marcados. Além disso, profissionais ouvidos indicam assimetria no balanço de risco-retorno: o potencial de alta em caso de alternância de poder parece, hoje, maior do que o espaço adicional de queda com a reeleição do atual governo — uma leitura que favorece entrada de recursos se a percepção de mudança crescer.

O efeito prático para o governo e para a política econômica é claro. A possibilidade de disputa mais aberta acende alerta sobre maior volatilidade política e pressiona a agenda fiscal e de comunicação do Planalto: menos certeza sobre continuidade amplia o prêmio de risco e exige reação estratégica dos atores públicos. Para investidores, o caso ilustra como fatores eleitorais — pesquisas, perda de vantagem e sinais de abertura do mercado a novos candidatos — passam a fazer parte da precificação, com impactos concretos na liquidez e no custo de capital.