A recente decisão do Copom, que reduziu a Selic em 0,25 ponto pela terceira vez até 14,25% ao ano, foi recebida com mais perplexidade do que alívio pelo mercado. Analistas dizem que a autoridade monetária criou um ambiente de maior incerteza, em que cada dado macro passa a ter peso ampliado na formação das expectativas sobre os próximos passos da política monetária.

O Caged, cuja divulgação é aguardada de perto, tem potencial para mover a curva de juros apenas se vier muito diferente do consenso. A mediana do mercado aponta para cerca de 130 mil vagas formais, e a PNAD registrou taxa de desemprego de 5,6% no trimestre até maio — níveis que continuam a indicar um mercado de trabalho relativamente aquecido e resiliente.

Economistas consultados afirmam que, para alterar de fato a trajetória da Selic, seriam necessárias leituras consistentes de desaceleração do emprego e da inflação. Bruno Corano resume a avaliação: mercado de trabalho apertado e inflação ainda desconfortável reduzem o espaço do BC para afrouxar. André Valério e Felipe Rodrigo reforçam que resultados modestos no Caged dificilmente serão suficientes para alterar expectativas já precificadas.

No plano das decisões, cresce a probabilidade de pausa nos cortes nas próximas reuniões — ainda que exista o risco remoto de seguirem cortes marginais caso fatores externos, como preços do petróleo, se desinflacionem mais do que o esperado. A sequência de dados próximos, aliada à necessidade de responsabilidade fiscal, será determinante: sem contribuição fiscal, cabe ao BC ajustar o aperto, com impacto direto em custo de crédito e previsibilidade da política econômica.