O mercado financeiro continua a precificar alguma probabilidade de uma Selic mais baixa em 2027, na hipótese de transição de poder observada por investidores. A avaliação, compartilhada por gestores e analistas, é que a crença em uma mudança de governo sustenta expectativas de melhora nas contas públicas e, consequentemente, alívio na trajetória dos juros no médio prazo.

A pesquisa Quaest, que mostrou empate técnico entre os principais candidatos, acende alerta entre atores financeiros ao elevar o risco político de um segundo turno acirrado. Na prática, a Bolsa chegou a registrar alta acumulada superior a 8% na semana seguinte ao primeiro turno, movimento depois temperado pela intensificação da atividade política do PT — reação que levou parte do mercado a revisar levemente o prêmio de risco.

Carla Argenta, da CM Capital, resume o dilema: há um 'benefício da dúvida' em torno da expectativa de transição, mas a confiança é limitada pelas contradições percebidas nas propostas das campanhas. O plano de um candidato de direita é visto como mais favorável às contas públicas, mas sinalizações inconsistentes — redução do Estado combinada com manutenção de políticas estatais robustas — reduzem a magnitude do ajuste que os investidores estão dispostos a antecipar.

Além do fator doméstico, dados externos pesam: inflação americana acima do esperado reforça a perspectiva de juros nos EUA permanecendo altos, comprimindo liquidez global e pressionando emergentes. O efeito combinado é um ambiente com volatilidade maior no câmbio e taxa de juros: se a narrativa de transição vacilar, a necessidade de prêmio por risco pode postergar a queda da Selic, elevando o custo do crédito e pressionando expectativas fiscais. Na agenda política, o recado é claro: campanhas precisam apresentar propostas críveis e articuláveis para reduzir incertezas e evitar que a economia pague o preço da dúvida.