O mercado começou a precificar uma possibilidade concreta: se houver compromisso fiscal a partir de 2027, combinado a um câmbio mais favorável e a um desaquecimento da atividade, pode surgir espaço para acelerar os cortes da Selic. A leitura sobre essa perspectiva ganhou força após o primeiro turno eleitoral, quando as taxas futuras médias e longas recuaram mais de 100 pontos-base, segundo Elisa Machado, da KAT Investimentos. O Copom, por ora, tem mantido um ritmo de redução gradual — cinco quedas de 0,25 ponto — que deixou a Selic em 13,75% ao ano.

Apesar do movimento nos contratos, a aceleração dos cortes não é o cenário-base da maioria dos economistas consultados. O boletim Focus projeta a Selic em 13,25% no fim de 2026 (dois cortes de 0,25), e 12% ao término de 2027. Para Thiago Machado, do Morgan Stanley, a expectativa de consolidação fiscal é crucial para que ativos brasileiros se valorizem; sem avanços, o espaço para queda adicional das taxas tende a ser limitado. Em outras palavras: promessa não confirmada e ausência de medidas concretas preservam prêmio de risco.

A dinâmica da inflação impõe cautela. O Banco Central manteve projeções sensíveis no relatório de setembro — com 3,2% para o primeiro trimestre de 2028 como horizonte relevante — e elevou a estimativa do IPCA para o quarto trimestre de 2027 de 3,7% para 3,9%. O IPCA de setembro surpreendeu (alta de 0,82% ante expectativa de 0,60%), pressionado por energia elétrica e com aceleração das medidas de núcleo. Economistas como Leandro Padulla, do ASA, destacam que a inflação de serviços ainda mostra resistência, e que a reancoragem das expectativas precisa avançar para permitir cortes mais rápidos.

Do ponto de vista político e fiscal, o mercado está à espera de sinais concretos: resultado do segundo turno, apresentação de medidas fiscais e séries de IPCAs que confirmem tendência descendente. Se confirmada, a consolidação reduziria prêmios, aliviaria o custo da dívida e facilitaria cortes mais ambiciosos — com efeitos positivos para investimento e consumo. Na ausência desses sinais, a combinação de inflação resistente, possíveis choques de demanda e volatilidade cambial limitará o Copom a uma trajetória mais gradual, impondo custo político e econômico a qualquer discurso de afrouxamento prematuro.