Brasília, DF – Com o ajuste fiscal visto pelo mercado como insuficiente para frear o avanço da dívida pública, as próximas indicações ao Banco Central entraram na lista de riscos que podem agravar a pressão sobre a economia. Nos bastidores, agentes financeiros já apelidaram o ajuste de “ajuste à la dona Lindu”, referência à orientação de restrição de gastos citada pelo presidente.

Há receio de que o governo escolha diretores mais inclinados a reduzir juros mesmo sem sinal claro de queda da inflação. Participantes do mercado falam em risco de aparelhamento do BC: a formação de uma maioria no Copom favorável a cortes poderia neutralizar até mesmo a posição do presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo.

É o BC contra o rapa

Duas cadeiras estão abertas desde o fim de 2025 — as diretorias de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, atualmente associadas a Paulo Picchetti e Gilneu Vivan — e outras quatro terão mandatos a vencer até 2027. Ailton de Aquino Santos (Fiscalização) e Nilton David (Política Monetária) saem em fevereiro, se não reconduzidos; os mandatos de Picchetti e de Rodrigo Alves Teixeira (Administração) terminam em dezembro, totalizando seis vagas a serem preenchidas.

Nomes em circulação, como o do economista André Roncaglia, diretor-executivo do Brasil no FMI e visto como heterodoxo, alimentam a preocupação mesmo sem indicação formal. Uma fonte do mercado resumiu a tensão: "É o BC contra o rapa". Se o mercado passar a duvidar da disposição do BC de reagir, um corte prematuro da Selic pode elevar o dólar e os juros de prazo mais longo, mantendo caro o crédito e pressionando preços — um ajuste que, na prática, pesa mais sobre os que têm menos instrumentos para se proteger. O quadro prospectivo para 2027, com inflação elevada e crescimento fraco, torna a combinação ainda mais delicada.