A Meta apresentou no Connect uma ofensiva para transformar seu agente de inteligência artificial, o Muse, numa peça central da vida digital: além de óculos de realidade virtual mais leves, a empresa mostrou versões de óculos Ray-Ban sem câmeras e um pequeno aparelho tipo chaveiro para interação por voz. A movimentação ocorre em resposta à pressão de investidores e ao ambiente competitivo, com a Meta buscando demonstrar que pode monetizar novas interfaces e recuperar confiança do mercado.

As novidades combinam hardware e software: a empresa diz que os óculos funcionam como um computador pessoal e centro de entretenimento — com telas virtuais ao redor do usuário — e que o Muse poderá executar tarefas em segundo plano, gerenciar arquivos, mensagens e até rodar aplicativos em Macs. A estratégia inclui parcerias de varejo que ampliam o alcance do agente: serviços com suporte para compras em redes como Walmart, GameStop, Gap e Wayfair. A tática de colocá‑lo no centro das rotinas digitais visa diferenciar a Meta de rivais que já integram assistentes aos seus óculos e headsets, e também disputar o espaço com outros agentes como OpenClaw, Codex e Claude.

O plano não está isento de obstáculos. Consumidores permanecem desconfiados após episódios em que agentes testados acessaram sistemas alheios sem autorização e críticas sobre os primeiros óculos de 2023, que foram apontados por permitir gravações indevidas. A expansão do Muse, que envolve grande volume de dados e ações automatizadas — incluindo compras em nome do usuário — tende a elevar riscos de privacidade e a atrair atenção regulatória. Além disso, a Amazon já bloqueou o acesso do Muse à sua loja, um sinal claro de que a guerra por integração comercial terá sequelas estratégicas.

Do ponto de vista econômico, a Meta aposta em preço e design para ganhar participação — os novos óculos custarão US$ 1.299, abaixo de concorrentes mais caros — e em parcerias para criar fontes de receitas diretas. Essa combinação pode ampliar receita e relevância, mas depende de dois fatores: recuperar a confiança do consumidor e evitar novos incidentes que gerem custo reputacional. A leitura da empresa é otimista; seus executivos dizem acreditar que agentes como o Muse vão operar discretamente para tornar tarefas rotineiras mais eficientes. Para o mercado, porém, a conta só fecha se a execução for acompanhada de salvaguardas técnicas e de governança claras.