O México e a União Europeia assinaram um acordo de livre comércio que amplia o tratado bilateral de 2000, até agora restrito majoritariamente a bens industriais. A atualização incorpora serviços, compras governamentais, comércio digital, investimentos e produtos agrícolas, refletindo uma tentativa clara de diminuir a dependência do mercado norte-americano e criar um escudo parcial contra as tarifas impostas na era Trump.
A iniciativa tem tom diplomático e econômico ao mesmo tempo. A UE sofreu em abril de 2025 medidas tarifárias dos EUA e chegou a preparar retaliações antes de uma trégua negociada, mas as tarifas americanas continuam elevadas sobre várias exportações europeias. O México também foi alvo de tarifas em setores sensíveis, como automóveis, aço e alumínio, e viu sua relação comercial com os EUA oscilar no segundo mandato de Trump — um risco relevante porque mais de 80% das exportações mexicanas ainda se destinam aos Estados Unidos.
Em termos concretos, o Ministério da Economia do México estima que o novo acordo poderia elevar as exportações mexicanas destinadas à UE de cerca de US$ 24 bilhões por ano para US$ 36 bilhões até 2030. Hoje a União Europeia exporta cerca de US$ 65 bilhões ao México. O texto prevê acesso preferencial quase sem tarifas para a maior parte dos produtos, com algumas cotas para itens agrícolas — entre os exemplos citados estão frango, aspargos e, do lado europeu, leite em pó, queijos e carne suína. A relação comercial entre os dois cresceu 75% na última década, numa pauta concentrada em equipamentos de transporte, maquinário, químicos e combustíveis.
O pacto é, nas palavras dos representantes europeus, mais que economia: tem carga geopolítica. Ainda assim, o alcance prático é contingente. A assinatura levou mais de um ano para ocorrer — reflexo das prioridades divergentes da UE, que nos últimos meses priorizou acordos com outros blocos e países — e o texto precisa passar pelo Parlamento Europeu antes de vigorar. Para o México, o cálculo político é delicado: há ganhos evidentes em diversificação e atração de investimentos, mas também o risco de tensiónar relações com Washington enquanto se negociam prorrogações do pacto trilateral com EUA e Canadá. Na prática, o acordo reduz vulnerabilidades e amplia opções, mas não substitui a centralidade do mercado americano na economia mexicana.