A Moody’s identifica como prioridade política e econômica a capacidade do governo Lula de transformar propostas em leis aprovadas pelo Congresso. Segundo o vice-presidente sênior da agência, a dificuldade não é apenas desenhar medidas, mas construir maiorias em uma composição parlamentar que se deslocou à direita — um fator que, por si só, acende alerta sobre a viabilidade das reformas fiscais necessárias.

A avaliação técnica da agência reforça a urgência: a nota soberana do Brasil permanece em Ba1, abaixo do grau de investimento, e a evolução da política fiscal será decisiva para qualquer revisão. A Moody’s destaca ainda que os juros elevam o custo de rolagem da dívida — os pagamentos de juros equivalem a cerca de 20% das receitas e superam 8% do PIB — e que mais de 40% da dívida do governo está atrelada a taxas flutuantes, aumentando a exposição a períodos prolongados de Selic alta. O prazo médio da dívida, por volta de quatro anos, reduz a folga contra choques prolongados.

Na visão da agência, mitigar essa vulnerabilidade passa por mudanças estruturais: revisar mecanismos de indexação que alimentam o crescimento das despesas obrigatórias e conter a escalada dos gastos corrigidos pelo salário mínimo e inflação. Essas medidas, no entanto, exigem PECs e acordos amplos — instrumentos que pedem três quintos dos votos na Câmara e no Senado — e, portanto, habilidade política para negociar com o centro e parte da direita. A incapacidade de avançar nessas frentes amplia desgaste político e complica a narrativa oficial sobre sustentabilidade fiscal.

Há também um nó macroeconômico: a combinação de estímulos fiscais e juros ainda elevados reduz o espaço do Banco Central para cortes rápidos da Selic e aumenta o risco de dominância fiscal, quando as contas públicas limitam a autonomia da política monetária. A Moody’s admite que uma consolidação fiscal crível poderia criar condições para redução gradual dos juros, mas isso depende da capacidade do governo de aprovar e executar reformas. Para investidores e para a própria gestão Lula, a mensagem é clara: sem acordo legislativo e credibilidade fiscal, a recuperação da confiança ficará comprometida e o custo político e econômico escalonará.