Um relatório recente do Morgan Stanley reavalia as apostas sobre a chamada desdolarização e conclui que a moeda norte-americana continua sendo a referência dominante no sistema financeiro global. Apesar do aumento recente da participação do ouro em algumas carteiras, o estudo mostra que o dólar ainda responde por cerca de 60% a 70% das reservas oficiais, respaldado por liquidez profunda e um arcabouço jurídico que oferece previsibilidade aos investidores.

Para gestores e investidores, a mensagem do banco é prática: o dólar mantém seu papel de porto seguro e isso se traduz em preferência por ativos norte-americanos. O Morgan Stanley mantém posição overweight em ações dos EUA e vê a aprovação de regras sobre stablecoins no Congresso americano como um elemento que fortalece o ecossistema financeiro local. Ao mesmo tempo, o relatório não ignora riscos fiscais nos Estados Unidos, mas avalia que, por ora, eles não são suficientes para deslocar a moeda de sua posição central.

Do ponto de vista de mercados emergentes, a conclusão tem efeitos concretos. O banco demonstra otimismo com parte da América Latina — México e Brasil entre eles — mas alerta que eventos políticos, como as eleições brasileiras, devem elevar a volatilidade e podem aumentar o custo de capital no curto prazo. A análise também compara a região com a Ásia, destacando que países com alta dependência de importação de petróleo ficam mais expostos à alta do petróleo, o que pode agravar pressões cambiais e fiscais.

A leitura política e econômica para o Brasil é direta: a predominância do dólar limita o espaço de manobra diante de choques externos e torna a credibilidade fiscal um elemento decisivo para atrair e manter capital. Em ano eleitoral, a combinação de incerteza política e sensibilidade externa exige respostas claras de política econômica — responsabilidade fiscal e comunicação firme do BC e do governo — para evitar elevação de risco-país e oscilações abruptas no câmbio. Monitorar a composição das reservas, o comportamento dos fluxos e as normas sobre moedas digitais será chave nos próximos trimestres.