A Multilaser, que fatura cerca de R$ 5 bilhões e emprega mais de 5 mil pessoas, traçou um diagnóstico duro do cenário macroeconômico brasileiro. Em entrevista ao CNN Money, o presidente do conselho, Alexandre Ostrowiecki, apontou os juros elevados e o alto endividamento das famílias como fatores centrais que retraem o consumo, sobretudo de bens duráveis. Como reação, a companhia tem focado em produtos mais acessíveis para driblar a perda de demanda.

Ostrowiecki chamou atenção para as contas públicas: segundo ele, o déficit primário deste ano está em torno de 0,4% do PIB (mais de R$ 50 bilhões) e, ao incluir o pagamento de juros, sobe para cerca de 8% do PIB — um patamar que, na avaliação do executivo, pressiona a trajetória da dívida e pode levar o endividamento do Estado a ultrapassar 100% do PIB no próximo ano. A comparação com outros países e o argumento de juros reais altos servem para reforçar o tom de alerta.

No plano das políticas públicas, o presidente criticou o viés de gastos, citou as emendas impositivas do Congresso (acima de R$ 60 bilhões) e a rigidez de receitas vinculadas a despesas obrigatórias como entraves ao ajuste fiscal. Sobre a chamada 'taxa das blusinhas', ele reconhece o alívio momentâneo para consumidores endividados, mas vê o benefício como um subsídio indireto à indústria chinesa, e defende isonomia tributária entre produção nacional e importada.

Ostrowiecki também se declarou a favor do fim da escala 6x1, lembrando que mudanças devem ser adotadas com prazos e responsabilidade para adaptação das empresas — na Multilaser menos de 15% dos funcionários ainda trabalham nesse regime. No campo político, defendeu governos reformistas focados em equilíbrio fiscal, enxugamento do Estado e corte de privilégios, ao mesmo tempo em que alerta para o impacto direto dessas variáveis sobre investimento, consumo e competitividade industrial.