As novas sobretaxas anunciadas pelo governo dos Estados Unidos, justificadas em parte por acusações de uso de trabalho forçado, chegam com uma sustentação jurídica que, segundo especialistas, torna sua reversão mais difícil. Para Celso Figueiredo, sócio do BPP Advogados e doutor em Direito Internacional, o pacote atual é, na prática, uma retomada do ‘tarifaço’ anterior, agora apoiada por fundamentos legais mais consistentes do que os usados em medidas anteriores.

Essa mudança de base técnica tem implicações imediatas para a diplomacia econômica brasileira. Se antes havia espaço para contestações formais mais amplas, a maior robustez jurídica reduz as chances de reverter integralmente as tarifas em curto prazo. Na avaliação do especialista, a alternativa plausível passa por negociações focalizadas: ampliar a lista de produtos isentos e buscar salvaguardas setoriais, em vez de apostar numa anulação total da medida.

O desenho das isenções já indica prioridades: itens do agronegócio foram em boa parte preservados, mas segmentos como máquinas, equipamentos e pescados permanecem vulneráveis. Isso acende alerta para exportadores e cadeias produtivas que dependem do mercado americano, ao mesmo tempo em que reforça a necessidade de acelerar uma estratégia de diversificação de destinos comerciais. A combinação de diálogo bilateral com fortalecimento de outras parcerias comerciais é, portanto, caminho pragmático.

Além do componente técnico, há um ingrediente político. A decisão americana aparece alinhada à agenda “America First” e às dinâmicas internas que pressionam a Casa Branca — um contexto que, segundo o especialista, tende a sobrepor-se à argumentação técnica. Para o Brasil, o desafio é político e econômico: negociar isenções relevantes, reduzir exposição setorial e mitigar o custo prático das medidas sobre a atividade exportadora, sem criar expectativas de reversão que dificilmente se concretizarão.