O governo federal lançou nesta segunda-feira o Novo Desenrola Brasil, uma segunda edição do programa de combate à inadimplência que será executada em quatro fases e inclui uma mobilização nacional de 90 dias para renegociação de dívidas. A parte voltada às famílias cobre débitos contratados até 31 de janeiro de 2026, com atraso de 90 dias a dois anos, para quem tem renda de até cinco salários-mínimos (R$ 8.105). A proposta prevê que instituições financeiras ofertem novo crédito com descontos para quitar saldos anteriores, com faixas de desconto distintas conforme o tipo de contrato e a antiguidade do débito.

Entre as novidades, trabalhadores poderão usar até 20% do saldo da conta poupança do FGTS — limitado a R$ 1.000 por pessoa — para reduzir dívidas. O governo também vai destinar recursos do chamado "dinheiro esquecido" do sistema financeiro para reforçar o caixa do Fundo Garantidor de Operações (FGO); o Ministério da Fazenda deve abrir edital para que interessados no Sistema de Valores a Receber solicitem os recursos em até 30 dias. Quem renegociar terá o CPF bloqueado em casas de apostas por 12 meses. Essas medidas têm apelo imediato, mas transferem risco e exigem transparência sobre custos e critérios de acionamento do FGO.

O programa inclui ainda ajustes no consignado do INSS e do servidor público, alternativas para mais de 1 milhão de estudantes com dívidas vencidas e duas frentes para micro e pequenas empresas: mudanças no ProCred (MEIs e microempresas) e no Pronampe (empresas com faturamento até R$ 4,8 milhões). No campo, o Desenrola Rural tem prazo ampliado até 20 de dezembro de 2026 e pretende atender cerca de 800 mil agricultores familiares — totalizando 1,3 milhão de beneficiados com renegociação e reinserção produtiva.

Do ponto de vista político e econômico, o programa pode reduzir indicadores de inadimplência no curto prazo e gerar alívio imediato para bolsos e urnas. Mas cria questões institucionais e fiscais: uso de poupança vinculada (FGTS) e de recursos públicos para garantir operações privadas pode ampliar exposição do Estado e gerar pressão sobre o orçamento. Resta ao Executivo detalhar regras de respaldo do FGO, custos estimados e mecanismos de monitoramento — além de provar que a operação não será apenas um alívio temporário para um problema estrutural de crédito e educação financeira. Os próximos passos a observar são o edital do FGO, a letra pequena das ofertas dos bancos e a adesão dos tomadores no prazo de 90 dias.