Em um momento de inadimplência recorde — com 82,8 milhões de CPFs em cadastros negativos, segundo a Serasa — os bancos adotaram postura mais conservadora na concessão de crédito, limitando a convergência entre crescimento da renda e expansão do consumo. O Novo Desenrola entra nesse quadro com potencial de restabelecer esse canal: ao reduzir o peso do serviço da dívida, amplia a renda disponível das famílias e pode impulsionar a demanda por bens e serviços.

A mecânica é simples, mas as consequências dividem analistas. Para Alexandre Albuquerque, vice-presidente e analista sênior da Moody's Ratings, o alívio no comprometimento da renda tende a se traduzir em maior consumo ou em nova demanda por empréstimos — algo que dependerá do grau de conservadorismo das instituições financeiras. Ele lembra que a renegociação não extingue a dívida: apenas a reduz, o que limita o ciclo expansivo.

Outros economistas veem efeito direto sobre a inflação. Luis Otavio Leal, da G5 Partners, considera o programa desfavorável ao Banco Central por aumentar pressões de demanda. Relatórios do Goldman Sachs mostram que a renda disponível bruta das famílias já cresceu significativamente (alta de 11,1% em março), e Alberto Ramos aponta que postura creditícia e medidas fiscais/parafiscais mais ativas podem manter o hiato do produto positivo e pressionar preços, especialmente os de serviços — exatamente o risco destacado pelo Copom.

Há, portanto, um conflito de objetivos: o governo usa instrumentos para estimular a economia; o BC tenta ancorar a inflação. Roberto Padovani, do Banco BV, avalia que, enquanto o programa não estiver plenamente em operação, os impactos são ainda teóricos, mas sugere que os juros podem permanecer elevados por mais tempo. Já Felipe Salles, do C6 Bank, relativiza o efeito no curto prazo diante de choques externos (câmbio, commodities e conflitos internacionais). Mesmo assim, o novo programa aumenta a complexidade da gestão macroeconômica e torna mais custosa a tarefa de conciliar estímulo social com estabilidade de preços.