Os preços ao consumidor nos Estados Unidos recuaram com força em junho, ao registrar queda mensal de 0,4%, ante projeção de queda de 0,1% feita por economistas. No acumulado em 12 meses, o CPI avançou 3,5%, abaixo da expectativa de 3,8%. O dado surpreendeu boa parte do mercado e reabriu discussões sobre a trajetória da inflação americana.
O núcleo do CPI — que exclui alimentos e energia — trouxe a surpresa mais contundente: variação ligeiramente negativa, na casa de -0,02%, quando o consenso projetava alta de cerca de 0,2%. Segundo o economista Rafael Rondinelli, a leitura do core foi, na prática, uma leitura de deflação, refletindo redução de preços em setores como educação, saúde e transporte, e uma surpresa disseminada entre os grupos de serviços.
A repercussão política imediata é clara: o resultado reduz a probabilidade de o Fed elevar juros na reunião de julho. Ainda assim, Rondinelli e analistas advertem que é cedo para considerar a desinflação consolidada; serão necessárias novas leituras para confirmar se a tendência se mantém ao longo do segundo semestre e se o banco central precisará retomar o aperto monetário.
Riscos externos mantêm a incerteza. A escalada do conflito entre EUA e Irã impulsionou os preços do petróleo na última semana, capaz de reverter parte da desaceleração inflacionária. Além disso, investimentos massivos em inteligência artificial — que elevam demanda por capacidade de processamento e energia — exercem pressão altista indireta sobre preços. Para economias emergentes, inclusive o Brasil, a combinação entre queda do CPI americano e episódios de volatilidade externa oferece alívio temporário, mas não elimina riscos para a trajetória da inflação doméstica e para as decisões de política monetária.