A dinâmica das milhas aéreas mudou de forma definitiva: o acúmulo deixou de depender sobretudo das horas voadas e migrou para o uso do cartão de crédito. Em entrevista durante a reunião anual da IATA no Brasil, o jornalista Richard Quest ilustrou a frustração dos viajantes que ainda valorizam o crédito por quilometragem; ele próprio registrou 110 voos em 2025, referência para seu olhar sobre o setor.
O novo desenho não é acidental. Bancos compram grandes blocos de pontos das companhias e os usam como incentivos para consumidores que gastam mais no cartão. Para as aéreas, a venda antecipada de milhas significa entrada imediata de caixa e margens atraentes; para os emissores de cartões, é um produto para atrair e reter clientes de maior renda. A Qantas é o exemplo citado com frequência: tornou-se um ator financeiro relevante em seu mercado doméstico.
Na ponta do consumidor, a mudança ajuda quem concentra gastos em cartão, mas tende a diluir a lógica tradicional de fidelidade ligada ao voo. Passageiros que acumulavam pontos 'à moda antiga' enfrentam perda relativa de valor; a percepção de equidade do programa pode ser afetada. Para as empresas, a composição da receita do setor aéreo passa a incorporar elementos financeiros que antes eram secundários.
O deslocamento dos pontos para a esfera financeira levanta questões práticas e regulatórias: valorações de passivos, transparência nos contratos entre bancos e aéreas e o impacto sobre concorrência e poder de mercado. É um aperitivo lucrativo para companhias e emissores — e um sinal para autoridades e consumidores de que fidelidade virou produto financeiro, não só benefício de voo.