Um estudo do Centro de Liderança Pública (CLP) identifica a expansão, sobretudo indiscriminada, do crédito consignado como um dos vetores centrais do aumento do endividamento das famílias brasileiras. Embora essa modalidade tenha juros mais baixos que outras linhas, o acesso facilitado elevou o volume total de dívidas e consolidou o crédito como mecanismo de sustentação do consumo.

Dados citados pela entidade mostram salto de 52% no montante contratado em consignado entre fevereiro e março — de R$ 7,146 bilhões para R$ 10,864 bilhões. Para a CLP, esse padrão traduz uma economia dependente da oferta de crédito para manter atividade e arrecadação, alimentada por uma gestão de gastos públicos que, na avaliação da entidade, recorre ao aumento da receita e ao estímulo ao consumo em vez de enfrentar o desequilíbrio fiscal.

A Febraban reconhece que programas como o Novo Desenrola Brasil ajudam a aliviar famílias e recuperar capacidade de crédito, mas não resolvem problemas estruturais do endividamento, afirmou o presidente Isaac Sidney à CNN Brasil. O Banco Central também ampliou a concorrência no setor financeiro, movimento que, segundo líderes do mercado, contribuiu para maior oferta de crédito — inclusive de pior qualidade em linhas sem garantia e com juros elevados.

Os indicadores mostram o impacto prático: pelo quarto mês consecutivo, a proporção de famílias endividadas atingiu novo recorde, subindo para 80,9% em abril, segundo a CNC. A inadimplência ficou em 29,7% e quase metade dos devedores (49,5%) acumulava atrasos superiores a 90 dias. Trocar dívidas caras por outras mais baratas, como propõe o Desenrola 2.0, dá alívio pontual; o desafio político e econômico é outro: reduzir a necessidade crônica de crédito, o que passa por retomar disciplina fiscal e reformas que restauram renda e poupança das famílias.