Josh D'Amaro, 55 anos, assumiu a chefia da The Walt Disney Company em março e apresentou na D23 uma mudança clara de rumo: abandonar a operação por unidades de negócio para operar como um único ecossistema sob a marca 'One Disney'. A proposta central é transformar o Disney+ em algo além do consumo passivo de vídeo, usando a plataforma como hub para jogos, comércio e interações ligadas às atrações dos parques.
A base prática da estratégia está nas fortalezas da empresa. D'Amaro foi alçado ao posto após longa carreira nos parques, divisão que captou boa parte do resultado operacional e responde por parcela dominante do lucro proporcional a receitas de US$ 17,5 bilhões no ano anterior. Integrar conteúdo, experiências presenciais e produtos tem potencial de elevar receita por usuário e estender o ciclo de vida das franquias — objetivo claro diante da necessidade de monetizar propriedades como Toy Story ou novas apostas da Pixar.
Mas a ambição vem acompanhada de desafios econômicos e operacionais. Converter o Disney+ em uma extensão permanente da experiência dos parques requer investimentos em tecnologia, logística e parcerias comerciais, além de uma coordenação fina entre áreas históricamente autônomas. Há ainda vulnerabilidades externas listadas pela própria companhia: impacto de conflitos internacionais e a alta dos combustíveis, que afetam turismo e a atratividade das viagens, e a concorrência intensa das gigantes de tecnologia em modelos de distribuição e uso de inteligência artificial.
O pano de fundo corporativo também reclama atenção. D'Amaro herda um setor televisivo em retração e a memória de sucessões turbulentas — a breve passagem de Bob Chapek e o retorno de Bob Iger marcaram os últimos anos. Investidores aguardavam justamente um plano capaz de reconciliar inovação tecnológica com o legado das marcas, ao mesmo tempo em que reduz exposição a segmentos mais voláteis.
Na prática, 'One Disney' é um desdobramento lógico da busca por maior monetização das marcas, mas seu êxito dependerá da capacidade executiva de integrar operações complexas sem diluir as experiências que tornaram a companhia única. A aposta pode ampliar vantagens competitivas se for bem coordenada; na falta disso, corre o risco de elevar custos, complicar a governança interna e aumentar a dependência de um negócio de turismo sensível a crises externas.