A sobreposição da Assembleia Geral da ONU com a Semana do Clima em Nova York deixou clara uma interrogação prática: como garantir energia, alimentos e segurança física num mundo de conflitos, rotas vulneráveis e eventos climáticos extremos? O episódio em torno do Estreito de Ormuz reabriu essa ferida: a rejeição a um acordo diplomático entre Estados Unidos e Irã impulsionou o preço do petróleo e reforçou a volatilidade dos mercados, lembrando que choques geopolíticos se traduzem rapidamente em custos para famílias e empresas.

Os números citados durante a semana ilustram a transmissão do risco. O Brent chegou a subir após o impasse e fechou a US$ 105,28 o barril no contrato de novembro, enquanto o dólar se fortaleceu externamente. No Brasil, a combinação pesou no câmbio — o dólar à vista fechou a R$ 5,225, alta de 0,85% — e o Ibovespa teve pregão volátil. Para consumidores e produtores, o efeito é conhecido: câmbio e capital mais caros elevam fretes, combustíveis e insumos, pressionando inflação e reduzindo margem de manobra para políticas fiscais e monetárias.

A resposta apontada por instituições e lideranças presentes em Nova York passa pela diversificação e resiliência das cadeias. A diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, defendeu comércio aberto e maior coordenação para evitar que uma rota fechada paralise insumos essenciais como fertilizantes e energia. No campo prático, a agenda da COP31 — incluindo a iniciativa '35 by 35', que busca elevar a parcela do consumo final suprida por eletricidade para 35% até 2035 — traz metas ambiciosas, mas dependem de investimento em redes, armazenamento e eficiência energética para não virarem mero discurso.

Para o Brasil, o nó é duplo: risco e oportunidade. A pressão por fertilizantes importados e por combustíveis refere-se diretamente à segurança alimentar e ao custo da produção agrícola; ao mesmo tempo, há espaço para ampliar capacidade produtiva nacional e formar parcerias estratégicas em fertilizantes, energia renovável e centros de dados para inteligência artificial. Mas é preciso traduzir metas em projetos bancáveis: reduzir dependências exige reformas nas regras do comércio, incentivos à eletrificação de transportes e edifícios, planejamento urbano e financiamento que suportem a transição sem sacrificar competitividade. Sem essa ponte entre clima e segurança energética, a agenda ambiental perde eficácia e o país fica mais vulnerável a choques externos.