Os R$ 99 bilhões desembolsados em despesas financeiras pelas companhias listadas nos primeiros meses do ano e o salto da base comparativa — de perto de R$ 10 bilhões para R$ 12 bilhões — trazem uma pergunta central para quem investe: o lucro contábil corresponde ao dinheiro que chega ao dono do negócio? A resposta, para Warren Buffett e para analistas mais exigentes, é: nem sempre. O conceito de Owner Earnings serve exatamente para separar o que é lucro de papel do que efetivamente pode ser usado para remunerar acionistas ou reinvestir com qualidade.

Owner Earnings é uma medida prática: parte-se do lucro, ajusta-se por despesas sem saída de caixa e, sobretudo, subtrai-se apenas o investimento necessário para manter a operação competitiva — o maintenance capex — além de avaliar necessidade de capital de giro. A dificuldade não é técnica: é de julgamento. Estimar o que é estritamente necessário para não perder posição no mercado exige leitura operacional e atenção a contas que costumam esconder reinvestimentos que pouco geram retorno.

O exercício comparativo é ilustrativo e aparece nas cartas de Buffett e em estudos recentes: duas empresas com receita de R$ 200 milhões e Ebitda de R$ 40 milhões podem ter destinos opostos se uma precisa de R$ 5 milhões por ano de maintenance capex e a outra, de R$ 18 milhões — além de capital de giro extra. No caixa, a primeira converte muito mais Ebitda em dinheiro disponível para o dono. Quando esse excedente é aplicado com ROIIC maior, o efeito composto ao longo de uma década separa medianas de compounders reais.

No Brasil atual, com a Selic em dois dígitos e a expectativa de manutenção da taxa elevada até 2029 segundo o Boletim Focus, o custo de capital deixa de ser detalhe e passa a determinar quem sobrevive. Já há sinais: bancos aumentando provisões, empresas de crédito mais cautelosas e mais recuperações extrajudiciais e judiciais. Para investidores, isso significa que olhar apenas para receita, margem ou Ebitda pode mascarar fragilidades — especialmente em setores intensivos em capex ou com necessidade elevada de capital de giro.

A consequência prática é dupla. Para o investidor: priorizar empresas com alta conversão de caixa e capacidade de reinvestir com bons retornos. Para as empresas e seus gestores: a necessidade de justificar investimentos por retorno incremental e gerir capital de giro com rigor. Em um ambiente onde o financiamento custa caro, a disciplina no maintenance capex e a clareza sobre o que é gasto necessário tornam-se vantagens competitivas e critérios de seleção de portfólio. Ignorar Owner Earnings, hoje, é assumir um risco que os números recentes da Bolsa deixam explícito.