O governo anunciou um pacote de R$ 18,5 bilhões destinado a mitigar os efeitos do chamado tarifaço imposto pelos Estados Unidos a exportadores brasileiros. Para Lucas Ferraz, ex‑secretário de Comércio Exterior, a iniciativa tem caráter emergencial e oferece alívio de curtíssimo prazo, mas não resolve a origem do problema: trata‑se, na sua avaliação, de uma espécie de remendo político‑econômico sobre uma ferida estrutural.

A crítica se apoia em sinais objetivos de instabilidade: desde 2 de abril de 2025 as tarifas enfrentadas pelos exportadores foram alteradas seis vezes, gerando um nível de incerteza em negociações bilaterais considerado sem precedentes. O efeito já se traduz em queda real do comércio com os EUA — importações e exportações recuaram cerca de 12% — e atinge cadeias intraindústria em que empresas multinacionais operam com frequência em ambos os lados do Atlântico.

Além do caráter temporário do pacote, há limitações estruturais que não foram enfrentadas. O Brasil mantém tarifas médias altas (em torno de 12%‑13%) e, somando equivalentes tarifários e barreiras técnicas, sanitárias e fitossanitárias, o custo efetivo pode superar 22%, segundo o Banco Mundial. Só 15% das exportações gozam hoje de preferência tarifária; com os acordos mais recentes esse percentual saltaria para cerca de 30%, ainda distante da média global de 70% a 80%. Nessa conjuntura, pedidos setoriais por mais proteção só agravariam a perda de competitividade.

O diagnóstico sugere que o efeito prático do pacote será limitar danos imediatos às empresas, mas elevar a conta fiscal e postergar decisões difíceis: é urgente dinamizar agenda de acordos, modernizar o regime tarifário do Mercosul e abrir espaço para negociações unilaterais que tornem o Brasil mais atraente em cadeias globais de valor. Sem essas mudanças, o país continuará vulnerável a choques externos e à pressão diplomática, com o governo repetindo respostas paliativas em vez de construir solução estrutural.