Dois negócios recentes deixam claro o que já era sentido no mercado: um time de basquete avaliado em US$ 12,5 bilhões e a venda de 38% do Liverpool por cerca de US$ 2,7 bilhões. Compradores como Bob Iger, Joshua Kushner e Jeff Bezos não estão pagando apenas por ativos tangíveis — estão comprando alcance, marcas e, sobretudo, a paixão das arquibancadas, um ativo intangível que não aparece em balanços, mas dita preços.
A transformação é estrutural. Clubes que historicamente funcionavam como associações passaram a ser tratados como empresas, com fluxo de caixa e governança pensados para investidores. No Brasil, o modelo SAF — adotado por times como Atlético-MG e Botafogo — é a tradução local dessa virada. Especialistas apontam que a profissionalização amplia receitas, mas também cria desigualdades esportivas e tensiona modelos associativos tradicionais, como já se observa em debates na Argentina.
O valor econômico do esporte ao vivo ficou evidente nas fontes de receita: levantamento da Deloitte indica que, entre os 20 clubes que mais faturam, 43% vem de patrocínios e atividades comerciais, 38% de direitos de transmissão e apenas 19% de dias de jogo. Relatórios citados pelo JP Morgan ressaltam a escassez de times icônicos diante do número de bilionários, cenário que ajuda a explicar valorizações de cerca de 1.600% nas últimas duas décadas — muito acima do principal índice da Bolsa americana no mesmo período.
As consequências políticas e econômicas são claras: concentração de ativos culturais nas mãos de investidores pode aumentar eficiência e capacidade de investimento, mas também acentua desigualdades competitivas, pressiona clubes a priorizar receita sobre identidade e levanta questionamentos regulatórios. Para parte da torcida, a esperança é que os aportes se convertam em títulos; para outra, cresce a dúvida sobre quanto da coletividade será sacrificada em nome do sucesso comercial. Mesmo assim, a paixão segue sendo o motor que transforma arquibancadas em capital.