O Paraguai deixou de ser apenas destino de compras para brasileiros e se firma como alternativa para produção industrial. Incentivos fiscais generosos e custos operacionais reduzidos têm atraído empresários nacionais, transformando avenidas em canteiros de obra e acelerando a construção de parques industriais em cidades próximas à fronteira com o Paraná.
Os números oficiais mostram movimento crescente: autorizações de residência concedidas a brasileiros passaram de cerca de 17 mil em 2024 para mais de 23 mil em 2025, avanço de 37%. Em paralelo, há pelo menos 179 empresas de capital brasileiro atuando sob o regime de maquila, com 47 delas instaladas nos últimos cinco anos. Entre os benefícios apontados pelas autoridades paraguaias estão isenções fiscais e aduaneiras, imposto único de 1% sobre exportações e suspensão de tributos para importação de maquinário e insumos.
Modelos práticos já aparecem na fronteira: marcas nacionais como Karsten e Lupo montaram unidades em municípios próximos a Ciudad del Este para etapas finais da produção. Advogados que acompanham o processo relatam rentabilidades elevadas para quem opera sob o regime local, fruto de economia tributária e de encargos trabalhistas. No Paraguai a jornada pode chegar a 48 horas semanais, e cerca de 60% da força de trabalho está na informalidade, apesar do desemprego oficial baixo (3,5%). Se mudanças nas leis brasileiras avançarem, como o fim da escala 6x1, a vantagem relativa de horas trabalhadas pode aumentar ainda mais.
O fenômeno carrega consequências concretas para o Brasil: além do risco de deslocamento de empregos e etapas produtivas para fora do país, há efeito sobre a arrecadação e pressão sobre setores industriais que permanecem no mercado interno. Politicamente, o movimento acende um sinal de alerta para o governo e para o Congresso — que enfrentam o desafio de equilibrar competitividade, custos trabalhistas e ambiente regulatório. A questão pede resposta técnica e estratégica: sem ajuste na política industrial e tributária, a saída de atividades para a fronteira tende a ampliar o custo econômico e a complicar a narrativa oficial sobre recuperação da produção.