A Patagônia argentina começou a figurar no radar de grandes operadores de data centers atraídos por clima ameno, terras pouco povoadas e uma oferta crescente de energia. Fontes do setor descrevem projetos iniciais em desenvolvimento que, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, avançam sem grande contestação pública por enquanto. A combinação de fatores geográficos e energéticos reabre um debate sobre ganhos econômicos e custos locais.
No polo de Neuquén, a Pampa Energia tem sondado a construção de uma instalação próxima à usina de Loma de la Lata que poderia demandar até 500 megawatts, aproveitando o gás de xisto de Vaca Muerta. Ao mesmo tempo, parcerias anunciadas no ano passado, como a da OpenAI com uma empresa local para um empreendimento estimado em até US$ 25 bilhões, reforçam o apetite internacional. Enquanto isso, a Argentina ainda concentra pequenos centros de dados em Buenos Aires e vê concorrentes regionais avançarem — Amazon no Chile e Google no Uruguai, por exemplo.
O quadro econômico e regulatório impulsiona a corrida. A administração de Javier Milei e o regime de incentivos RIGI tornaram o país mais atraente para investimentos em petróleo e mineração; seus defensores esperam que cortes fiscais semelhantes atraiam também megacentros de dados. Porém, investidores apontam que estabilidade política e infraestrutura complementar — cabos de fibra, capacidade de transmissão e garantias ambientais — são condição para assumir riscos, especialmente diante da expectativa em torno de um possível Super RIGI e das eleições de 2027.
Do ponto de vista público, a expansão acende alerta sobre duas frentes. Primeiro, a pressão sobre redes elétricas e o custo de acomodar demandas intensas podem gerar ajustes tarifários e tensões locais. Segundo, comunidades indígenas, como povos mapuche na região, já têm histórico de conflito com empresas de energia, e projetos de grande escala tendem a provocar resistência. Para converter interesse em vantagem sustentável, autoridades e investidores precisarão mais do que incentivos fiscais: exigirão planejamento de infraestrutura, regras claras e diálogo com afetados.