A proposta de emenda que pretende extinguir a escala 6x1 coloca em xeque a centralidade da negociação coletiva ao priorizar a imposição legislativa, avalia o sociólogo José Pastore, professor aposentado da USP. Para o especialista, a PEC tenta fixar jornada e escala por via legal em um espaço de tempo curto, reduzindo o papel das convenções e acordos entre empregadores e trabalhadores.

Pastore ressalta a complexidade prática da mudança: reorganizar turnos envolve replanejamento de manhã, tarde e noite, desenho de novas jornadas, treinamentos e adequação logística. O intervalo de 60 dias previsto para categorias como metalúrgicos e comerciários, diz ele, é incomum e insuficiente para que empresas de diferentes tamanhos e perfis realizem esses ajustes sem impacto operacional.

A abrangência da medida também é alvo de crítica. Aplicada de maneira uniforme, a regra alcançaria setores tão distintos quanto salões de beleza, siderurgias, farmácias e aviários — realidades que demandam soluções específicas. Pastore lembra que a CBO registra cerca de 2.400 ocupações no Brasil, o que reforça a inadequação de uma solução única para toda a economia. Segundo o especialista, não há referência internacional que legisle escala dessa forma.

Do ponto de vista político e institucional, a PEC sinaliza preferência pela via legislativa sobre o diálogo social, o que pode gerar resistência tanto de sindicatos quanto de empregadores, além de riscos de contencioso e custos adicionais para adaptação. O diagnóstico é claro: sem ampliar o tempo e reabrir espaço para negociação, a proposta tende a impor uma camisa de força que complica implementação e eficiência.