O recuo do Brent para cerca de US$ 72 o barril — o menor nível desde 27 de fevereiro — e uma desvalorização semanal superior a 10% fizeram o mercado devolver rapidamente o prêmio geopolítico acumulado na escalada entre EUA e Irã. Em poucos dias, o preço passou de uma leitura dominada pelo risco de interrupção prolongada das exportações para outra em que prevalecem os fundamentos de oferta disponíveis.

A mudança não nasceu do fim das hostilidades: confrontos e represálias ainda ocorrem. Mas a assinatura de um memorando entre Washington e Teerã, aliada ao aumento verificado no tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz e à retomada de carregamentos em terminais como Ras Tanura, reduziu a probabilidade atribuída pelo mercado a um bloqueio duradouro. Exportações do Golfo Pérsico voltaram a representar perto de três quartos dos níveis anteriores ao pico da crise, e produtores da região ampliaram fluxos para compensar perdas pontuais.

Analistas e consultorias passaram a enfatizar os efeitos físicos da oferta. Estudos de mercado — citados por operadores — mostram que a combinação entre maior produção regional, flexibilidade logística, estoques estratégicos e o avanço gradual da transição energética dilui a capacidade de um conflito localizado gerar choques prolongados de oferta. Na prática, o petróleo voltou a precificar o fornecimento real, não apenas a ameaça de desabastecimento, com consequências diretas para a volatilidade dos preços e para pressões inflacionárias globais.

Isso altera o cenário político-econômico: preços mais baixos aliviam curto prazo sobre inflação, combustíveis e contas públicas, e reduzem espaço para argumentos de urgência em medidas emergenciais. Mas o risco não desapareceu — novas hostilidades ou um ataque a terminais e rotas navais fariam o prêmio geopolítico reaparecer com rapidez. A leitura atual indica que há guerra, mas não desabastecimento; é uma diferença que acende alerta para gestores e investidores, que precisam monitorar a fragilidade da paz e a resiliência das cadeias de oferta.