O recuo momentâneo no preço do petróleo não sobreviveu por muito tempo: com o Brent fechando em US$ 92,17 na segunda‑feira, fica claro que o choque energético continua vivo na América Latina. Em junho, a inflação energética anual da região alcançou 8,03%, mais do que o dobro da inflação geral de 4,49% — e muito além dos 2,12% registrados em março. A escalada em apenas três meses, apontam os dados, reflete sobretudo as tensões recentes no Oriente Médio que afetam oferta, refino e transporte.
Os combustíveis concentraram grande parte da pressão. Segundo a Organização Latino‑Americana e Caribenha de Energia (OLACDE), a gasolina média passou de US$ 1,19 por litro em fevereiro para US$ 1,38 em junho; o diesel saiu de US$ 1,12 para US$ 1,30 no mesmo período. Mesmo com defasagens causadas por estoques, refino, impostos, câmbio e mecanismos regulatórios, a elevação do barril tende a repercutir nas bombas — e, no caso do diesel, a transmissão é especialmente ampla porque incide sobre frete rodoviário, agricultura, mineração e indústria.
O caso brasileiro funciona como um contraponto, mas não como blindagem completa. O IPCA subiu 0,16% em junho e acumula 4,64% em 12 meses; os combustíveis, por sua vez, recuaram 0,48% em junho (diesel -1,19%; gasolina -0,12%). O etanol, diferencial importante, caiu 3,09% no mês, acumulou -3,98% no primeiro semestre e registra deflação de 0,32% em 12 meses. Produção doméstica de petróleo e participação relevante dos biocombustíveis ajudaram a amortecer o choque, mas a exposição persiste: em junho, o diesel A importado ainda representou 11,86% das vendas (ante 26,65% no ano anterior) e a gasolina A importada subiu de 6,81% para 12,85%, segundo a ANP.
A questão para a política econômica é prática e imediata: o choque permanecerá concentrado nos preços de energia ou começará a contaminar outros núcleos de inflação? Se o diesel continuar caro, aumenta a probabilidade de repasses a alimentos, transporte de mercadorias e serviços, ampliando a pressão sobre o IPCA e complicando a condução monetária. Do ponto de vista fiscal e político, elevados preços na bomba podem exigir intervenções, subsídios temporários ou acomodação regulatória, todas com custo e efeito sobre expectativas e contas públicas.
O alívio observado nos combustíveis em junho não garante uma tendência. Com o Brent novamente acima de US$90, o risco de contágio permanece aberto e pede monitoramento rigoroso de pass‑through, estoques e evolução dos custos logísticos. Para evitar que um choque externo se transforme em inflação generalizada, será necessário combinar vigilância do Banco Central sobre as expectativas com medidas regulatórias e fiscais calibradas — sem iludir a opinião pública com soluções pontuais que apenas empurrem o custo para depois.