A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira uma operação para apurar eventuais irregularidades relacionadas ao rombo financeiro que levou a Americanas à recuperação judicial em 2023. O movimento reacende perguntas sobre a integridade das contas da varejista e sobre o momento escolhido pela direção para tentar antecipar a saída do regime especial.

Em março, a empresa protocolou pedido para encerrar a recuperação judicial, afirmando que havia cumprido integralmente o plano de recuperação e citando pareceres favoráveis do Ministério Público e do administrador judicial. A solicitação depende agora da decisão da 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, que avaliará se a companhia de fato regularizou suas obrigações e mitigou riscos remanescentes.

O caso tem antecedentes pesados: em janeiro de 2023 a companhia revelou inconsistências inicialmente estimadas em R$ 20 bilhões e, após nova apuração, apontou dívida superior a R$ 40 bilhões. Desde então, acordos com credores, vendas de ativos (estimadas entre R$ 346 milhões e R$ 468 milhões) e compromissos específicos com amortização de debêntures tentaram reconstruir confiança no mercado.

A operação da PF — cujo escopo se refere à fraude identificada em 2023 — acende alerta sobre a capacidade da direção de encerrar o processo sem esclarecer todas as pontas. Mesmo com a empresa sustentando que não foi alvo de busca e apreensão e afirmando que seguirá colaborando, investigações em curso adicionam incerteza jurídica e reputacional que podem pesar na avaliação da Justiça e dos credores.

Além do aspecto judicial, a retomada do controle sobre a narrativa financeira é central para restaurar credibilidade junto a investidores, fornecedores e clientes. A decisão sobre a saída da recuperação será, portanto, menos um marco contábil e mais um termômetro da capacidade da Americanas de convencer o sistema financeiro e a Justiça de que os mecanismos de governança foram efetivamente corrigidos.