O Produto Interno Bruto avançou 1,1% no primeiro trimestre de 2026, resultado alinhado às expectativas do mercado, mas que especialistas classificam como reflexo de um impulso fiscal concentrado no início do ano. Gabriel Couto, economista do Santander, aponta para medidas como a isenção do imposto de renda para salários até R$ 5 mil e transferências extraordinárias, além de um mercado de trabalho que “surpreendeu positivamente”, como fatores que inflaram a demanda doméstica no período.
Apesar do desempenho, a leitura dos analistas é de que o quadro não é sustentável. Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, enfatiza que o crescimento mais forte observado no primeiro trimestre tende a perder força ao longo do ano. O Santander projeta uma média de crescimento trimestral de 0,4% para os trimestres restantes de 2026, bem abaixo dos 1,1% iniciais — sinal claro de desaceleração.
A combinação de menor impulso fiscal e uma política monetária ainda em patamar restritivo deve amplificar esse arrefecimento. Marianna Costa, da Mirae, compara o padrão ao de anos anteriores, com início de ano vigoroso seguido por perda de ritmo. O endividamento crescente das famílias também é citado como fator que deve pressionar o consumo, um dos motores do crescimento recente.
No horizonte anual, o Santander estima crescimento de 1,8% para 2026 e projeta desaceleração adicional para 2027, com expansão próxima a 1%. Para gestores públicos e formuladores de política econômica, o diagnóstico impõe dilemas: estímulos concentrados elevam o custo fiscal e podem criar uma ilusão temporária de recuperação; por outro lado, juros elevados têm efeitos protraídos sobre investimento e demanda. O desafio é reconstruir uma trajetória de crescimento mais estável sem abrir mão da responsabilidade fiscal.