O relatório Acrobacia Financeira, produzido pela Consumoteca em parceria com o Inter, documenta uma mudança pragmática no comportamento do consumidor brasileiro: diante do aumento do custo de vida — apontado por 45% dos endividados como causa de dívidas —, produtos financeiros são ressignificados como ferramentas de sobrevivência. A pesquisa classifica essas táticas informais como uma 'tecnologia de sobrevivência' e registra que 62% das pessoas afirmam precisar escolher o que pagar quando a renda não dá conta das despesas.
Entre as manobras descritas estão o pix parcelado, o pagamento mínimo de boletos e o uso do cartão de crédito para despesas básicas. O cartão, criticado pela educação financeira tradicional, foi usado por 56% dos entrevistados no último ano como suporte de caixa; nas classes D e E, o recurso atua como uma extensão da renda. Na prática, 44% desses consumidores recorrem ao pagamento mínimo para evitar corte de serviços essenciais, demonstrando que o objetivo é preservar o fluxo, não ampliar consumo discreto.
O estudo também aponta uma contradição política e institucional: embora 91% dos entrevistados queiram aprender mais sobre finanças, há preferência por soluções práticas que validem 'truques' cotidianos em vez de manuais teóricos. Ao mesmo tempo, a falta de transparência na concessão de crédito aparece como um dos maiores motivos de frustração — quase metade de quem já viveu estresse financeiro recebeu negativa de crédito. Esse nó cria demanda por produtos que entendam a realidade do usuário sem empurrar endividamento.
Para instituições financeiras e reguladores, o desafio é claro: converter improvisos em ferramentas estruturadas, com transparência de custos e opções que reduzam o risco de inadimplência. O relatório destaca que 74% dos entrevistados confiam em apps que levam em conta o 'malabarismo' financeiro; o Inter, por exemplo, oferece o Meu Crédito no super app como alternativa com taxas acessíveis e acompanhamento. Do ponto de vista público, a solução exige políticas que ataquem a pressão sobre renda real e medidas de educação financeira pragmática — sem transformar o crédito em estímulo à dependência, mas também garantindo acesso responsável em um cenário de escassez.