A economia dos Estados Unidos segue uma dinâmica cada vez mais bifurcada: o chamado formato em K descreve bem a situação em que uma parcela reduzida da população acelera ganhos patrimoniais enquanto a maioria fica para trás. Dados do Federal Reserve mostram que, em 1989, os 10% mais ricos detinham 32% da riqueza total do país; em 2025, essa fatia já alcançava 68%. O fenômeno não é apenas sobre renda corrente, mas sobre acúmulo de ativos e oportunidade de valorização.
Três motores explicam a divergência: imóvel, ações e comportamento diante da inflação. Os 20% mais ricos concentram mais da metade do valor dos imóveis residenciais nos EUA; os 20% mais pobres somam apenas 3% do valor imobiliário. Após a pandemia, proprietários conseguiram refinanciar hipotecas em condições muito favoráveis, liberando cerca de US$ 430 bilhões em patrimônio líquido — vantagem direta para quem já detinha casas. No universo financeiro, mais de três quartos dos ativos estão nas mãos dos 20% mais ricos, e o 1% detém mais de um quarto desses ativos. O S&P 500 valorizou-se cerca de 86% nos últimos três anos, enquanto o dinheiro em espécie rendeu menos de 1% ao ano em média — desequilíbrios que privilegiam quem está exposto aos mercados.
A inflação também opera de modo assimétrico: despesas essenciais, como moradia e alimentação, pesam mais no orçamento dos pobres e subiram mais do que os itens consumidos pelos ricos. Entre 2005 e 2023, os preços ao consumidor cresceram 57% para os 20% mais pobres e 46% para os 20% mais ricos, segundo o Fed de Minneapolis. Nos últimos três anos, o patrimônio líquido do 1% mais rico cresceu 30%, enquanto o grupo médio (40%) teve aumento inferior a 10%. Famílias com renda abaixo de US$ 40 mil cortaram gastos a partir de janeiro de 2023 e só recuperaram patamares de consumo em setembro de 2024; seu gasto real avançou apenas 1,3% no período, contra 7,6% das famílias com renda acima de US$ 125 mil.
O quadro tem implicações políticas e econômicas claras. A concentração de ativos reduz mobilidade social e cria tensões sobre a capacidade das políticas públicas de garantir acesso à moradia e ao capital. Para gestores públicos e formuladores de políticas, o desafio é duplo: conter riscos fiscais e, ao mesmo tempo, promover inclusão financeira e formas de ampliar o acesso a ativos que geram riqueza — sem sacrificar responsabilidade fiscal. Ignorar a assimetria entre quem pode se beneficiar de mercados e quem enfrenta inflação de itens essenciais é apostar em maior fragmentação social e em custos políticos crescentes para governos de todos os espectros.