Desde 1.º de maio, produtos brasileiros desembarcando na União Europeia já podem usufruir das primeiras reduções tarifárias previstas no acordo com o Mercosul. Ao mesmo tempo, a aprovação definitiva do texto está suspensa: o Parlamento Europeu requisitou ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) uma avaliação jurídica — pedido aprovado por diferença de apenas dez votos — e o processo pode levar 16 a 18 meses. Em linguagem simples: o comércio começou, a política ainda não terminou.

É aí que entra Portugal. O país tem uma vantagem real — conhecimento da língua, redes culturais e presença institucional na Europa — que o coloca em posição singular para mediar a travessia entre empresas brasileiras e mercados europeus. Mas ser ponte exige mais do que afetos e cerimônias: exige capacidade técnica, coordenação e risco político. Sem isso, a ponte corre o risco de virar apenas cartão-postal diplomático.

Para que a abertura comercial se traduza em ganho real é necessária uma agenda prática e imediata. Em primeiro lugar, Lisboa deveria mobilizar coligações dentro das instituições europeias para reduzir resistências técnicas e políticas ao acordo. Em segundo, precisa oferecer inteligência regulatória às empresas brasileiras e formação para as pequenas e médias portuguesas sobre requisitos sanitários, ambientais e regras de origem. Por fim, há que alinhar portos, logística e cadeias de valor, criando serviços de suporte — consultoria, financiamento e centros de compliance — que tornem as trocas viáveis além dos grandes grupos já instalados.

O prêmio é grande: uma zona econômica superior a 700 milhões de pessoas e oportunidades de investimento recíproco em energia, agricultura e indústria. O risco também existe. Tratados comerciais distribuem possibilidades, não garantem resultados. Se Lisboa mantiver uma postura passiva, os ganhos serão capturados por atores com maior preparo logístico e jurídico, e Portugal perderá influência estratégica que poderia virar empregos, serviços e receita fiscal.

A decisão jurídica será tomada em Luxemburgo; a decisão sobre a utilidade de Portugal será tomada em Lisboa. Não se trata de atrair manchetes, mas de criar instrumentos de apoio empresarial, articular portos e rotas, formar especialistas e exercer diplomacia econômica além das fotografias oficiais. Sem liderança concreta, a ponte portuguesa corre o risco de virar paisagem — útil para retratos, inútil para a economia real.