A decisão do governo, formalizada por medida provisória, de proibir as bets e o chamado 'jogo do tigrinho' tem repercussões que vão além do setor de apostas: transmite ao mercado a ideia de que contratos podem ser alterados de forma abrupta. Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, disse ao CNN Prime Time que esse tipo de 'canetada' gera uma perigosa sensação de que "tudo pode acontecer" — e, na prática, afasta investidores de projetos de prazo mais longo.

Para o economista, a medida não é um episódio isolado, mas parte de um conjunto de decisões contraditórias — desde a liberação inicial das apostas, passando por vetos pontuais, até a proibição total às vésperas das eleições municipais — que minam a previsibilidade necessária ao planejamento empresarial. A consequência direta, segundo Figueiredo, é a perda de confiança nas instituições e o aumento da percepção de risco sobre o cumprimento de contratos cuja outorga foi prevista por cinco anos.

Os efeitos sobre a economia são claros e interligados: com menos investimento privado — hoje entre 14% e 15% do PIB, segundo o ex-diretor, bem abaixo do patamar acima de 20% considerado necessário — o país reduz sua capacidade de crescimento potencial. Em sua avaliação, a soma de medidas que elevam gastos pontuais sem estruturar a oferta está 'contratando uma recessão' para 2025, ao mesmo tempo em que pressiona o Banco Central a elevar juros para tentar controlar a inflação.

A mudança abrupta nas regras também gera efeitos práticos e legais imediatos. Empresas do setor mantinham contratos com outras companhias, times de futebol e milhares de pessoas; a interrupção desses acordos tende a desencadear disputas na Justiça por quebra de contrato, uma consequência já apontada por Figueiredo. Além do impacto jurídico, esse tipo de choques corrói ainda mais a disposição de empresários, de diferentes portes, em aportar recursos de longo prazo.

Do ponto de vista político e institucional, a MP acende alerta sobre o custo econômico de decisões tomadas em curto prazo e com aroma eleitoral. O recado ao mercado é nítido: se a previsibilidade jurídica ficar comprometida, o ajuste exigido na política monetária e os custos sobre o investimento poderão se tornar mais duradouros — um preço que repercute na capacidade de crescimento, no emprego e nas contas públicas.