A proibição da oferta de apostas de quota fixa, formalizada em medida provisória publicada na sexta-feira (25), abre espaço para que parte do dinheiro antes destinado às bets volte ao consumo. Analistas ouvidos pelo mercado apontam que o impacto mais imediato tende a favorecer supermercados e atacarejos — citados como Assaí e Carrefour — e, em seguida, segmentos como farmácias, vestuário e eletrodomésticos.
Apesar do potencial efeito positivo, o tom das avaliações é comedido. O BTG estimou em R$ 36,9 bilhões a receita bruta do mercado regulado de apostas em 2025; mesmo a migração parcial desses recursos para compras ou amortização de dívidas pode ser relevante para famílias de menor renda, mas dificilmente compensará problemas estruturais que pesam sobre o consumo.
Economistas ressaltam que juros elevados e o alto endividamento das famílias continuam sendo o fator determinante para a capacidade de compra. Na prática, a medida provisória pode dar um impulso temporário às vendas, mas em um cenário de restrição monetária e desaceleração econômica o ganho tende a ser limitado. Há também o risco de migração para apostas clandestinas — um fator que reduz a precisão de qualquer estimativa de recuperação do consumo.
Além dos efeitos econômicos, a mudança repentina na regulamentação amplia a incerteza para investidores e para empresas que já vinham citando as bets em teleconferências de resultados. O texto da MP precisa passar pelo Congresso em até 120 dias para não perder validade, o que deixa em aberto o risco jurídico e regulatório. Em resumo: há potencial de alívio pontual para o varejo, mas juros, endividamento e incerteza institucional complicam a narrativa de recuperação.