No último debate antes do segundo turno, realizado pela TV Globo na sexta (23), Lula e Flávio Bolsonaro convergiram em propostas voltadas à proteção da renda: reajustes do salário mínimo acima da inflação, ampliação de benefícios sociais, renegociação das dívidas das famílias e mais investimentos em infraestrutura. Apesar das semelhanças no objetivo, os candidatos apresentaram instrumentos diferentes — e deixaram explícita a falta de clareza sobre a origem dos recursos.

Lula defendeu uma nova versão do programa Desenrola, prevista para operar até R$ 150 bilhões na compra de dívidas com desconto, na tentativa de facilitar a renegociação para consumidores e pequenos empreendedores. Flávio propôs um caminho alternativo: transformar a Caixa Econômica em um “Banco da Prosperidade” que compraria dívidas e ofertaria crédito com condições mais favoráveis, com carência de seis meses para pessoas físicas e um ano para empresas. Ambas as propostas buscam reduzir o peso das obrigações no orçamento doméstico, mas não detalham a distribuição de riscos nem o custo fiscal dessas operações.

Na área social, Flávio propôs manter o pagamento do Bolsa Família por até dois anos após a formalização do emprego para evitar perda imediata de renda — ampliação sobre a regra prevista para novos ingressos a partir de julho de 2025, que prevê até 12 meses com pagamento de 50% em casos de renda não estável. Em habitação, a ideia de renomear programas para Casa Verde e Amarela e financiar 2,5 milhões de moradias foi anunciada sem informar faixas de renda, valores de subsídio ou taxas. Sem esses detalhes, fica impossível avaliar a efetividade ou o custo real das propostas.

O que sobra do debate é uma agenda de medidas com apelo social, mas com evidente lacuna fiscal. A priorização de expansão de benefícios em detrimento do ajuste das contas públicas acende alerta: ou haverá aumento de receitas, ou cortes em outras áreas, ou maior endividamento público. Politicamente, a indefinição complica a narrativa oficial de ambos os lados e amplia desgaste potencial no momento em que a confiança nos parâmetros fiscais será determinante para investimentos e para a rua. Eleitores e mercados têm o direito de exigir números, fontes e mecanismos claros antes que promessas se transformem em encargos permanentes sobre o orçamento.