O Tesouro Nacional divulgou revisão do Plano Anual de Financiamento da Dívida que, entre ajustes, prevê maior uso de títulos atrelados à Selic. Para o economista Felipe Salto, a mudança reflete um quadro fiscal "bastante delicado", mas não configura um risco de insolvência imediato. Parte do argumento é técnico: o Tesouro dispõe de um colchão de liquidez próximo a R$ 1,5 trilhão, que, com gestão profissional, permite enfrentar turbulências temporárias.
Salto chama atenção para as taxas reais historicamente altas das NTNBs, que indicam exigência de prêmio pelo risco fiscal. Em resposta, o Tesouro amplia emissões de LFTs — mais líquidas e menos sujeitas a perdas no curto prazo — na tentativa de minimizar impacto sobre investidores. Ainda assim, o especialista ressalta que a questão fiscal afeta expectativas e, por consequência, a formação da taxa de juros.
A raiz do problema é estrutural: gastos obrigatórios representam mais de 95% do orçamento (sem contar juros), e pisos constitucionais e benefícios indexados reduzem espaço de manobra. Emendas parlamentares, que cresceram cerca de 700% na última década, ilustram como o Orçamento foi capturado por interesses legislativos, limitando a capacidade do Executivo de conduzir uma proposta orçamentária sustentável.
Salto admite que o Brasil cria muitas regras fiscais, mas carece de compromisso político com o ajuste. Defende reduzir o limite de crescimento das despesas para algo em torno de 1% acima da inflação e separar correção do salário mínimo da indexação de benefícios previdenciários. Sem medidas concretas e sinalizações firmes, o custo será manutenção de juros elevados e maior prêmio do mercado — uma conta que recai sobre a economia real e sobre a capacidade do governo de executar políticas públicas.