Os estremecimentos de 1987 — com inflação na casa das centenas de por cento, moratória da dívida externa, escândalos de corrupção em grandes obras e tragédias como o acidente radioativo em Goiânia — continuam a funcionar como referência histórica para entender fragilidades brasileiras. Aqueles episódios expuseram déficits institucionais, falhas de regulação e custos sociais que permaneceram como sombras sobre decisões públicas posteriores. Nem por acaso boa parte do debate atual parte da constatação de que, embora o país tenha mudado em números, não construiu um arcabouço estratégico que dê previsibilidade ao futuro.
No lado positivo do balanço, há conquistas inegáveis: estabilização da moeda, maior integração ao comércio internacional, presença global de empresas nacionais, uma matriz energética com predomínio renovável, estoques relevantes de reservas internacionais e redução da pobreza. São avanços que melhoraram o equilíbrio macroeconômico e abriram janelas de oportunidade. Ainda assim, sem um projeto nacional de longo prazo — uma estratégia de Estado com metas, prioridades e mecanismos permanentes de governança — esses ganhos se mostram frágeis diante de choques externos e de ciclos políticos curtos.
O problema não é apenas técnico; é político. A persistente polarização reduz a capacidade de formar consensos mínimos sobre pautas estruturantes: educação, formação de capital humano, logística e infraestrutura, estímulo à inovação e regras claras para investimentos privados. Enquanto outras nações formalizam respostas estratégicas — com programas e calendários que atraem capitais e guiam decisões públicas — o Brasil oscila entre políticas episódicas e soluções pontuais. O efeito prático: oportunidades de modernização ficam por explorar, o custo de capital sobe e a confiança de investidores e cidadãos diminui.
A saída passa por três frentes interligadas e urgentes: (1) um pacto político e técnico que estabeleça prioridades plurianuais e blindagem institucional para projetos de infraestrutura e ciência; (2) disciplina fiscal e aperfeiçoamento regulatório que reduzam risco e custo de investimento; (3) incentivos claros à educação, pesquisa e à formação profissional alinhada às demandas produtivas. Não se trata de nostalgia por modelos estatizantes nem de entrega acrítica ao mercado, mas de construir regras estáveis que viabilizem parcerias público-privadas, atração de capital e ganhos de produtividade. Sem esse mínimo, o país continuará a acumular microvitórias e a perder corridas de longo prazo — um resultado que, ao final, cobra preço político e econômico elevado.