As ações da Raízen sofreram forte volatilidade nesta quinta-feira após a divulgação de um documento com os termos do plano de recuperação extrajudicial. Os papéis chegaram a cair mais de 21% e, por volta das 13h44, recuavam 19,05%, negociados a R$ 0,34. O chamado “blowout” detalha uma dívida total de R$ 75,35 bilhões, sendo R$ 65,4 bilhões sujeitos ao processo de recuperação, informação que acelerou a correção do valor de mercado.
O esqueleto da reestruturação prevê um aporte imediato de R$ 3,5 bilhões pela Shell a R$ 0,25 por ação, além de até R$ 500 milhões por um veículo ligado à Aguassanta Investimentos, de Rubens Ometto. Há ainda emissão de novas ações e a proposta de cisão da companhia em Raízen Energia e Raízen Combustíveis, condicionada à venda de ativos não estratégicos. Três opções de pagamento foram apresentadas: conversão parcial em ações (opção A), troca por dívida da Raízen Energia com desconto de 80% e vencimento em 2047 (opção B) e pagamento em dinheiro limitado por teto agregado (opção C).
Para analistas do UBS BB, a taxa de conversão a R$ 0,25 por ação implica que os credores terminarão com cerca de 83% da empresa — o equivalente a 72% das ações ordinárias — ao final do processo. Do ponto de vista de governança, a proposta mantém a administração atual, mas concede aos credores poder de supervisão e o direito de indicar quatro dos sete conselheiros, incluindo o presidente. Na prática, trata-se de uma transferência substancial do controle econômico e político da companhia para seus credores.
O mercado reage à perda abrupta de valor para acionistas e ao redesenho do capital: os atuais investidores enfrentam diluição severa, enquanto a operação reconfigura riscos para fornecedores, credores de mercado e potenciais compradores de ativos. A opção pela cisão e pelo alongamento da dívida até 2047 mostra que a solução privilegia a recuperação do crédito em prazo longo, mas também deixa incertezas sobre execução, preço de ativos e capacidade de recuperação operacional. Para minoritários, resta a perspectiva de forte desvalorização; para o setor, o caso reafirma o custo elevado de crises em empresas de infraestrutura e commodities.