O rali que colocou fabricantes de semicondutores no centro do mercado americano perdeu ímpeto nas últimas semanas. Desde os recordes de 2 de junho, o S&P 500 e o Nasdaq recuaram cerca de 2% e 5%, respectivamente, reflexo da realização de lucros e de um ambiente externo mais tenso, com as incertezas no Oriente Médio pesando sobre a apetência ao risco.

A força deste segmento foi notável: segundo Mike O'Rourke, estrategista da JonesTrading, a indústria de semicondutores respondeu por quase metade dos ganhos de valor de mercado do S&P 500 no ano. Mas a velocidade da alta levantou dúvidas sobre avaliação e sustentabilidade. A Micron, por exemplo, caiu mais de 20% desde seu pico em 25 de junho, enquanto o índice PHLX — que reúne empresas do setor — recuou cerca de 15% desde o fim de junho, mesmo mantendo altas relevantes no acumulado do ano.

Os fundamentos que impulsionaram o rali permanecem — demanda por chips para aplicações de IA e ofertas ainda apertadas que permitiram ganhos de preço e contratos lucrativos —, mas a leitura do mercado mudou. Investidores passaram a questionar se os grandes desembolsos dos hiperescaladores (Microsoft, Meta, Google) em infraestrutura de IA vão sustentar o crescimento de lucros projetado para as fabricantes. Analistas alertam que parte das ações já incorpora expectativas elevadas de expansão de receitas, o que amplia o risco de desapontamento caso o ritmo de gastos desacelere.

O efeito prático é claro: a próxima temporada de resultados deve ser decisiva. Empresas terão de mostrar não apenas crescimento, mas confirmação de contratos e manutenção de margens. Para investidores, o cenário impõe maior seletividade e abre espaço para rotação setorial. Para o mercado mais amplo, a correção no setor de chips expõe a concentração de ganhos em poucas empresas e pode traduzir-se em maior volatilidade enquanto as projeções de gasto em IA são reavaliadas.