A possibilidade de reabrir o Estreito de Ormuz tem sido apresentada como passo necessário para aliviar a pressão sobre os preços globais de petróleo e insumos, mas especialistas consultados apontam que a medida, por si só, será insuficiente. O problema não é apenas permitir que navios carregados saiam do Golfo; é ter navios vazios seguros e disponíveis para entrar e retomar a cadeia de cargas. Sem esse equilíbrio operacional, os ganhos iniciais serão temporários.

Armadores, petroleiros e suas seguradoras estão relutantes em voltar a transitar pela região enquanto persistir a dúvida sobre a duração e a solidez de um cessar-fogo. Na avaliação de Lale Akoner, analista da eToro, um cessar-fogo curto ou frágil não oferece a confiança necessária para que operadores e companhias de seguro assumam o risco. A consequência é uma preferência por aguardar certezas operacionais em vez de retomar imediatamente as rotas.

O descompasso entre embarcações carregadas e vagarosas prontas para entrar é o nó central. Segundo Matt Smith, da Kpler, o tráfego diário de mais de cem petroleiros que costumava atravessar o estreito caiu para dez ou menos. Há cerca de 400 petroleiros já carregados no Golfo aguardando saída e somente cerca de 100 navios vazios disponíveis para entrar e formar um fluxo contínuo. Smith estima que, mesmo com reabertura imediata, o retorno ao ritmo normal do transporte só ocorreria por volta de julho — um intervalo suficiente para estender perturbações nos mercados.

O problema afeta também os porta-contêineres e, com eles, insumos como fertilizantes. Peter Tirschwell, da S&P Global, aponta que cerca de 100 navios porta-contêineres estão retidos para sair e quase nenhum se dispõe a entrar; esse descompasso pode deixar até 30% da oferta mundial de fertilizantes parada por meses. Além do impacto direto nas exportações regionais, não há capacidade fácil de redirecionar essas cargas por outras rotas ou modais em volume compatível.

O resultado é um choque de oferta que tende a pressionar preços de combustíveis, fertilizantes e fretes por um período prolongado, com efeitos sobre custos industriais, produção agrícola e inflação. Para governos e mercados, a lição é clara: medidas pontuais de circulação não substituem garantias duráveis de segurança e de cobertura contra riscos. A normalização exigirá não só política e diplomacia para um cessar-fogo robusto, mas também coordenação entre armadores, seguradoras e operadores logísticos para recompor a flotilha disponível — um processo que tem custo e janela temporal própria, e que torna ilusória qualquer expectativa de solução imediata.