A hipótese de um fim imediato das hostilidades no Oriente Médio provocou otimismo cauteloso nos mercados, mas não resolve automaticamente o gargalo que elevou os preços do petróleo. Investidores seguem céticos: embora o Brent tenha recuado em momentos recentes, continua significativamente acima dos níveis anteriores ao conflito. A razão é simples e técnica — e implica que a chamada “normalização” não será uma questão de dias.
O primeiro frigir dos ovos é logístico. Existem dezenas de navios-tanque retidos na área — estimativas apontam para cerca de 128 embarcações com cerca de 160 milhões de barris — que precisarão se movimentar em sequência. Só depois que os petroleiros vazios conseguirem acessar instalações de carga é que a corrente de embarques voltará ao fluxo anterior. Analistas de mercado indicam que o retorno à capacidade plena de trânsito pode levar até três meses, mesmo sem novos choques, porque a cadeia de carregamento e trânsito opera em ritmo lento e ordenado.
Além do transporte, está o reinício da produção. Muitos poços foram desativados ou operaram muito abaixo da capacidade durante o conflito. Retomar produção é procedimento de engenharia complexo: exige reequilíbrio de pressão, coordenação entre campos e países e retomada gradual para evitar danos permanentes aos reservatórios. Soma-se a isso o fato de que refinarias e infraestruturas foram danificadas em alguns pontos — reparos que, em casos severos, podem se estender por meses ou anos. Estima-se que algo próximo a 12 milhões de barris por dia de produção e outros 3 milhões de barris por dia de produtos refinados foram interrompidos na região, um volume cuja recomposição não é trivial.
O quadro combina inércia logística, riscos técnicos e incerteza política: cabeça de chave é a postura do Irã em relação ao Estreito e o destino de medidas de bloqueio e sanções. Para países importadores — inclusive o Brasil — isso significa que os efeitos sobre preços domésticos, inflação e políticas fiscais podem persistir por mais tempo do que se imagina. Em suma, mesmo com cessar-fogo, a normalização do mercado petrolífero será gradual, sujeita a episódios e dependente de decisões técnicas e geopolíticas; não há garantias de retorno rápido aos patamares pré-guerra.