O processo que vem sendo consolidado na União Europeia sob o rótulo ReArm Europe — também apresentado como Readiness 2030 — deixou de ser apenas um debate estratégico para virar programa concreto. A proposta central prevê até 800 bilhões de euros em novos sistemas e equipamentos militares, cifra equivalente a mais de 5 trilhões de reais, e foi acompanhada por iniciativas nacionais de grande escala. A Comissão Europeia defende que o objetivo é aumentar a dissuasão e a capacidade de defesa em todos os domínios, do terrestre ao espaço, e justifica a urgência com o receio de novas agressões no continente após a invasão da Ucrânia em 2022.

Além da narrativa institucional, o movimento ganhou tração política diante da redução do comprometimento dos Estados Unidos com a defesa europeia, mudança realçada por autoridades e que empurrou líderes do bloco a buscar autonomia estratégica. Países como Alemanha, França e Polônia anunciaram escaladas orçamentárias. Berlim destinou 108 bilhões de euros neste ano e projeta ampliar esse montante para 153 bilhões até 2029; a França estima cerca de 80 bilhões anuais até 2030; a Polônia sinaliza despesas de 44 bilhões de euros em 2026, quase 4,7% do seu PIB. Ao mesmo tempo, houve coordenação entre Paris e Londres sobre posturas nucleares e declarações públicas que visam sinalizar capacidade de resposta conjunta.

O impulso aos gastos traz, porém, um conjunto de escolhas econômicas e institucionais complexas. A própria Comissão propõe flexibilizar regras fiscais para viabilizar investimentos — uma inversão significativa na ortodoxia europeia das últimas décadas. No plano interno, a pressão por priorizar compras conjuntas e favorecer fornecedores europeus tenta fortalecer a base industrial do setor, mas levanta riscos: gargalos produtivos em munições, chips e drones; risco de deslocamento de investimentos civis essenciais; e pressões inflacionárias sobre matérias-primas e mão de obra especializada. Do ponto de vista fiscal, esses programas aumentam a tensão entre responsabilidade orçamental e exigências de segurança, potencialmente elevando déficits e endividamento em países já vulneráveis.

Politicamente, o rearmamento amplia a necessidade de coordenação entre Bruxelas e capitais nacionais e testa a coesão do bloco: celebrar mais capacidade militar é fácil; decidir quem paga, como priorizar compras e que empresas apoiar é muito mais difícil. Para a Europa, o desafio será transformar um impulso popular e institucional em capacidade sustentável, sem sacrificar investimentos sociais e estabilidade fiscal. Do ponto de vista geopolítico, o movimento reforça a busca por autonomia estratégica, mas não elimina a interdependência com a OTAN e com os Estados Unidos — nem os custos políticos de uma agenda que redistribui recursos em nome da segurança.