A Receita Federal identificou o uso de R$ 365 milhões em criptoativos para ocultar recursos no esquema de adulteração e distribuição de combustíveis, segundo o relatório que integra a Operação Fluxo Oculto, desdobramento da Operação Carbono Oculto. As apurações apontam a existência de seis fintechs que funcionavam como bancos paralelos para o crime organizado; entre 2021 e 2024 essas instituições teriam movimentado mais de R$ 26 bilhões. O avanço das investigações se deve, em boa parte, à obrigatoriedade de entrega da e‑Financeira imposta a partir de meados de 2025, quando mais de 450 novas instituições passaram a prestar informações ao Fisco.
A Receita descreve um mecanismo sofisticado de ocultação: depósitos em espécie, abertura de contas em múltiplas instituições de pagamento e remessas a fundos de investimento para mascarar os beneficiários finais. Entre 2022 e 2024, uma única instituição recebeu mais de R$ 1 bilhão em depósitos em espécie, segundo o relatório. Foram identificados quatro fundos, duas administradoras e duas gestoras envolvidos na cadeia de ocultação; hoje os quatro fundos têm patrimônio combinado em torno de R$ 205 milhões, conforme o Fisco.
Em paralelo às manobras financeiras, a investigação detectou um esquema de uso de nafta petroquímica para adulterar combustíveis. Empresas de fachada teriam simulado aquisições com destinação industrial da nafta, que era desviada para terminais e misturada a tanques de combustíveis automotivos antes de seguir para postos ligados à organização criminosa. O governo estima que a fraude gerou um prejuízo de cerca de R$ 200 milhões em tributos em um período de dois anos, além de ampliar a margem de lucro ilícito pela redução de custos com insumos.
O caso expõe uma lacuna regulatória explorada por criminosos: até 2025, muitas instituições de pagamento não estavam obrigadas a informar operações à Receita, criando uma janela para a criação de ‘bancos paralelos’. A descoberta reforça a necessidade de fortalecimento do combate à lavagem por meio de maior transparência e monitoramento de fintechs, fundos e plataformas de criptoativos. Politicamente e economicamente, o episódio acende alerta sobre perda de arrecadação, risco reputacional do mercado de pagamentos e a urgência de medidas que tornem permanente a asfixia financeira das organizações que operam nesse segmento.