No espaço de poucos dias, pedidos de recuperação judicial apresentados pelo Grupo Casas Bahia e pela Marabraz deixaram claro que a crise já não é um fenômeno isolado do varejo. As operações baseadas em lojas físicas, estoques elevados e margens comprimidas mostram-se vulneráveis em um ambiente de juros altos e consumo mais fraco. Segundo a Serasa Experian, o comércio responde por 21,7% das empresas em recuperação — um indicador de que o problema está concentrado onde o modelo de negócio não acompanhou a digitalização e a busca do consumidor por preço e conveniência online.

Há elementos estruturais que agravam a situação. Mecanismos como o risco sacado — antecipação de recebíveis via cadeia de fornecedores — podem sustentar o capital de giro no curto prazo, mas escondem dependência de crédito e ampliam a pressão sobre balanços quando o custo de financiamento sobe. O aperto à concessão de crédito, intensificado após escândalos como o da Americanas, encareceu e restringiu opções de financiamento. Empresas que já buscaram reestruturações extrajudiciais, como as Casas Bahia em 2024, viram essas manobras mostrar-se insuficientes diante da deterioração contínua.

Os números apontam para um padrão preocupante: em 2025 foram protocolados 977 processos de recuperação judicial, envolvendo 2.466 CNPJs — o maior volume desde 2016 e 13% a mais que em 2024, segundo a Serasa. Estudos também indicam piora no desfecho desses processos: a proporção de empresas que entram em recuperação e acabam falindo subiu significativamente, reforçando a ideia de que o instrumento tem sido acionado tardiamente e com eficácia reduzida. Com custo de capital na ordem de 15% e renda ainda fraca para expandir consumo, muitas companhias não encontram espaço para ajustar negócios a tempo.

O efeito prático é triplo: maior risco para credores e fornecedores; desemprego e perda de capacidade produtiva em cadeias afetadas; e pressão política por respostas regulatórias e medidas de estímulo à reorganização preventiva. A leitura jornalística é clara: não se trata apenas de socorrer empresas, mas de repensar práticas de crédito, fortalecer mecanismos de reestruturação precoce e incentivar transformação digital e eficiência operacional. Sem mudança de estratégia por parte de empresas, financiadores e formuladores de políticas, o que se vê hoje pode ampliar-se e contaminar outros setores já sensíveis ao custo do capital.