O comprometimento da renda e o atraso no pagamento de contas atingem níveis recordes no país, e, na avaliação de Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper, as iniciativas do governo para renegociar dívidas têm mais impacto eleitoral do que solução estrutural. Em entrevista ao CNN Money, Mendes afirmou que, ao mesmo tempo em que anuncia programas para aliviar famílias endividadas, o governo mantém linhas de crédito subsidiado — incluindo operações dirigidas ao cadastro único, microempresas e microempreendedores — que incentivam novas dívidas.
O pesquisador aponta quatro problemas centrais nessas medidas: o custo fiscal direto para os cofres públicos; efeitos adversos sobre o crescimento no médio e longo prazo; a repetida ineficácia de experiências anteriores de perdão ou reescalonamento de dívidas; e a pressão adicional sobre a política monetária, que precisa lidar com riscos de inflação e com um ciclo de juros mais complexo. Para Mendes, esse conjunto cria incentivos perversos para famílias que passam a contar com uma intervenção estatal recorrente.
No diagnóstico apresentado pelo Insper, o país vive um ciclo vicioso sustentado por três pilares: desequilíbrio fiscal persistente com pesada rigidez de despesas obrigatórias; baixo crescimento da produtividade; e má alocação de recursos nas políticas sociais. Mendes lembra que o gasto social brasileiro supera R$ 400 bilhões e poderia ter impacto muito maior na redução da pobreza se fosse redesenhado. Citou ainda distorções em programas como o Bolsa Família, cujo desenho atual teria estimulado arranjos artificiais de beneficiários para maximizar o recebimento.
Como saída, o pesquisador defende um pacote orientado a ajustes fiscais, medidas que elevem a produtividade e a reestruturação de programas sociais — não a renegociação direta e recorrente de dívidas pelo Executivo. Em vez de entrar na linha de frente das negociações, diz ele, o governo deveria priorizar educação financeira, regulação contra práticas de crédito abusivas e cooperação com o sistema bancário para aumentar transparência. No curto prazo, soluções pontuais podem reduzir a tensão antes de uma eleição, mas ampliam o custo fiscal e o risco de moral hazard, o que acende alerta sobre a sustentabilidade da estratégia.