A Eurasia Group estima que a eventual retirada do veto brasileiro à prorrogação da moratória sobre comércio eletrônico na OMC é um movimento importante — e talvez a maior carta que o Brasil possa jogar no curto prazo —, mas insuficiente para garantir um acordo com os Estados Unidos. Em entrevista ao WW, o diretor‑executivo Christopher Garman colocou a probabilidade de entendimento entre Brasília e Washington em apenas 30% a 35%. O diagnóstico reverbera a percepção de que o gesto, embora relevante, tem alcance limitado diante das demandas americanas.
O nó diplomático remonta à conferência ministerial da OMC em março, em Camarões, quando os Estados Unidos defenderam tornar permanente a isenção de tarifas sobre transmissões eletrônicas, uma moratória em vigor desde 1998 e renovada bianualmente. O Brasil, com aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após contato do chanceler Mauro Vieira, barrou a prorrogação — postura que deixou o país isolado na reunião, conforme apurado pela cobertura internacional. Nem mesmo a Turquia manteve o apoio brasileiro até o fim do encontro.
A reação americana foi dura: segundo relatos, o representante comercial dos EUA retornou a Washington irritado e colocou a questão brasileira sob observação direta, com um relatório que recomenda a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. Nesse contexto, a retirada do veto funcionaria como um sinal de abertura diplomática e tem custo político relativamente baixo, na avaliação de analistas. Ainda assim, Eurasia mantém ceticismo, porque outros pontos cruciais — redução de tarifas sobre etanol e concessões em minerais críticos — seguem sem avanços claros.
Do ponto de vista prático, a leitura é política e econômica. Se o governo aposta que apenas alterar a posição sobre e‑commerce será recebido como prova de boa vontade, corre o risco de subestimar a agenda americana e prolongar um impasse que pode resultar em medidas punitivas. A alternativa é ampliar a pauta de negociação — com custos e concessões reais — ou aceitar um caminho de estagnação que pode acentuar tensão comercial e gerar consequências para exportadores e para a condução da política externa econômica do país.