Declarações otimistas sobre uma paz iminente no Oriente Médio — como a anunciada recentemente pelo presidente dos Estados Unidos — ainda encontram ressalvas do principal ator regional. O Irã mantém postura cautelosa e não aceita automaticamente a ideia de passagem livre no Estreito de Ormuz, que foi usado como ferramenta de pressão durante o conflito. Promessas vagas de reabertura, seguidas por recuos e incidentes, têm mantido o prêmio de risco embutido nos preços.

A logística impõe um gargalo imediato. Cerca de 166 petroleiros estão retidos no Golfo Pérsico, com aproximadamente 170 milhões de barris a bordo, segundo a Kpler; liberar essa fila e recompor a cadeia de transporte pode levar semanas a meses. A própria capacidade de navios em circular livremente depende de seguradoras aceitarem retomar coberturas cujo custo subiu milhares de pontos percentuais. Refinarias, que adotaram estoques mais elevados por cautela, ajudam a amortecer choques imediatos, mas também atrasam a normalização do fluxo comercial.

Reativar a produção interrompida é outro desafio técnico. Poços e campos desligados não voltam ao mesmo ritmo com um simples comando: é preciso reiniciar operações lentamente para preservar a pressão nos reservatórios, retomar injeções de água e gás e, em muitos casos, realizar reparos e perfurações adicionais. Além disso, danos a refinarias e a parte da infraestrutura podem demandar recuperação que leva meses ou até anos, condicionando a oferta futura.

Do ponto de vista de mercado, o efeito é tangível. O Brent tem negociado na casa dos US$ 100 por barril e analistas do JPMorgan, supondo reabertura no início de junho, projetam média de cerca de US$ 97 pelo resto do ano. Cenários de retorno a níveis muito baixos, que reduziriam substancialmente preços de combustíveis, não estão previstos pelo mercado futuro em curto prazo. Para governos e consumidores, isso significa custo fiscal e pressão sobre inflação e renda disponível; para a política econômica, acende alerta sobre a necessidade de contingência e comunicação clara diante de uma normalização gradual e incerta.