Levantamentos recentes mostram um quadro inquietante para a recuperação da capacidade financeira das famílias brasileiras. A CNC estima que 80,4% dos lares têm algum tipo de dívida e cerca de 27,5 milhões de pessoas estão com o nome negativado. Mesmo com emprego e renda em patamares melhores, cerca de 30% da renda familiar está comprometida com pagamento de dívidas, e as concessões de crédito bateram recorde em 2025 — com dezembro atingindo R$ 406,61 bilhões em empréstimos à pessoa física.
O relatório do FGV Ibre descreve esse cenário como um processo de “retroalimentação”: juros básicos elevados (Selic a 14,75% e juros reais em 9,51%) tornam a dívida mais cara; altas taxas de inadimplência pressionam os custos dos bancos; e esses custos são repassados ao consumidor por meio de pricing mais alto. O diagnóstico é especialmente duro para o crédito das famílias: enquanto o crédito agregado avança, as famílias seguem dependentes de linhas bancárias tradicionais, com taxas médias que podem chegar a 62% ao ano e, no caso do rotativo do cartão, a 435,9% em fevereiro de 2026. O resultado é um efeito bola de neve, com juros acumulando 6,3% da renda nacional e o cartão consumindo 54% do orçamento familiar em média.
As causas enumeradas no relatório vão além da política monetária: custo de captação dos bancos, inadimplência, despesas administrativas, tributos, contribuições ao FGC e margens das instituições explicam por que o custo final do crédito é tão elevado. A desigualdade na intermediação financeira também se destaca: grandes empresas e o setor público se beneficiam de mercado de capitais com condições mais favoráveis, enquanto as famílias arcam com as linhas mais onerosas. Essa assimetria tem efeitos políticos e sociais claros — redução do consumo, fragilização da recuperação e aumento do risco de crise social localizada.
Para romper o ciclo, o relatório propõe uma agenda pública em duas frentes — a primeira, explicitada, busca redução do custo do crédito e melhoria da qualidade do endividamento, com incentivos à migração para linhas mais baratas e fortalecimento de mecanismos de prevenção ao superendividamento. O diagnóstico técnico exige, no entanto, respostas amplas: mais competição no setor financeiro, revisão de custos regulatórios e tributários que pressionam o spread e políticas de proteção e educação financeira. Sem medidas coordenadas, o Brasil corre o risco de consolidar um padrão estrutural de crédito caro que amplia vulnerabilidades e cobra preço político e econômico elevado.