O BNDES e o governo interino do Rio de Janeiro anunciaram, em coletiva no Tribunal de Justiça na sexta-feira (21), um acordo para renegociar R$ 8 bilhões de passivos estaduais — R$ 6,1 bilhões relativos à Linha 4 do metrô e R$ 1,9 bilhão ligados à Supervia. Segundo o presidente do banco, Aloizio Mercadante, o serviço da dívida consome cerca de R$ 600 milhões por ano; a reestruturação reduziria esse desembolso em aproximadamente R$ 242 milhões anuais, por meio da prorrogação dos prazos e da redução das prestações.

Do ponto de vista fiscal, a operação alivia a pressão de caixa do Tesouro e é apresentada como condição para a efetiva adesão do Rio ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas (Propag), que já teve a entrada formalizada pelo estado em junho. A equipe do governo tampão também vinha negociando reestruturações com outros credores: cita-se discussão sobre cerca de R$ 26 bilhões com instituições financeiras e uma busca de acordo de R$ 7 bilhões junto ao Banco Mundial, pendente de pauta na Cofiex em setembro.

A leitura política do acordo é dupla. No curto prazo, o alívio facilita o cumprimento dos novos termos federais e dá margem para que o estado anuncie projetos considerados "legado" — expansão da Linha 2, compra de helicópteros para saúde e segurança e construção de um presídio — possivelmente assinados antes do fim do mandato tampão. Por outro lado, prorrogar prazos costuma reduzir a pressão hoje à custa de maior desembolso total no futuro, transferindo ônus para a próxima gestão e limitando espaço de manobra fiscal adiante.

Para investidores e mercados, a negociação com o BNDES sinaliza capacidade de diálogo entre credores e governo, mas não resolve a fragilidade estrutural das contas fluminenses: mesmo com a economia anual anunciada, o serviço residual da dívida permanece elevado. A continuidade das tratativas com Banco do Brasil, Banco Mundial e outros agentes será determinante para transformar o alívio pontual em sustentabilidade fiscal duradoura — e para medir o custo político e econômico dessa transferência temporal de encargos.